Introdução Desde as primeiras braçadas da lendária nadadora Maria Lenk, em Los Angeles-1932, até as duplas do vôlei de praia Jacqueline-Sandra e Adriana-Mônica conquistarem as inéditas medalhas olímpicas femininas do país, em Atlanta-1996, mais de meio século se passou. No ano em que a histórica façanha completa duas décadas, O DIA refaz o heroico caminho das pioneiras até o pódio. Uma jornada vencida com superação, talento, suor e lágrimas.
Créditos Reportagem: Ana Carla Gomes e Márcia Vieira
Projeto Gráfico: Alessandro Matheus
Ilustração das medalhas: Nei Lima
Ilustração dos pôsteres: Gustavo Moore
Design e desenvolvimento web: Marleisson Cirilo

Da primeira à última braçada,
em 16 de abril de 2007, na piscina do Flamengo,
a nadadora Maria Lenk venceu preconceitos,
quebrou barreiras e foi um exemplo do espírito
olímpico servindo de inspiração para gerações de mulheres.
Tinha apenas 17 anos quando atravessou
o Oceano Atlântico a bordo de um navio,
o Itaquicê — desacompanhada dos pais e cercada por 81 homens,
durante seis semanas —, para representar o Brasil em Los Angeles-1932.
Um escândalo em uma época em que se esperava que a mulher cuidasse somente
dos afazeres domésticos e da família.

ITAQUICÊ - O navio de Maria Lenk levava 55 mil sacas de café para serem vendidas e custear a viagem
Crédito: E-Museu Maria Lenk


Mas um ano antes de as mulheres conquistarem o direito de votar (1933), Maria Lenk fez história ao ser a primeira sul-americana a disputar uma Olimpíada ao nadar as provas dos 100m livre, 100m costas e 200m peito. Não seria a última façanha da intrépida mocinha que já impressionava por vencer as Travessias do Rio Tietê, em São Paulo, e treinar com os homens.

Em Berlim-1936, a equipe feminina de natação, formada por Maria Lenk e sua irmã, Sieglinde, além de Piedade Coutinho, Scylla Venâncio e Helena de Moraes Salles, não foi longe nas raias alemãs. O melhor resultado foi o de Piedade Coutinho, que chegou em quinto nos 400m nado livre e quebrou o recorde sul-americano sob olhar de Adolf Hitler. Mas foi Maria Lenk quem ganhou as manchetes dos jornais por ser a primeira mulher a nadar o estilo borboleta. O topo estava próximo e viria em 1939, quando ela quebrou dois recordes mundiais, nos 200m e 400m nado peito.

PARCERIA. Com poucas mulheres no esporte de alto nível, Maria Lenk treinava também com homens
Crédito: E-Museu Maria Lenk


“O primeiro brasileiro recordista mundial de natação não é homem, é uma mulher. Ela estava pronta a ganhar a medalha nos Jogos de 1940 quando estourou a guerra. Foi azar”, diz o sobrinho de Maria Lenk, Francisco da Costa e Silva Junior, que guarda boas lembranças da tia. Uma mulher, segundo ele, muito independente. "Ela casou e o marido deu para beber. Sabe o que ela fez? O colocou no avião de volta para os Estados Unidos e criou os filhos sozinha no Brasil."

EXEMPLO. Maria Lenk foi a primeira brasileira a bater um recorde mundial de natação
Crédito: E-Museu Maria Lenk


Francisco também comenta o lado extravagante da tia, que chegou a comprar, em 1958, uma Kombi para passear com os filhos. "Ela era impulsiva e tinha personalidade muito forte. Eu morei com ela um período e um belo dia me perguntou o que eu acharia se pintasse a cozinha de vermelho. Ponderei: 'Mas vermelho é uma cor forte, muito quente. Por que não um azul claro? Ficaria bem melhor'", relembra. Mais tarde, quando chegou em casa, Francisco levou um susto ao entrar na cozinha. "Mas, tia, você pintou de vermelho, por que me perguntou então?", conta, às gargalhadas

PIONEIRA DENTRO E FORA DAS RAIAS

Maria Lenk não foi apenas uma das maiores nadadoras do mundo. Fora das raias também fez história com a marca do pioneirismo. De personalidade forte, muito exigente e educadora nata, fez parte da primeira turma de professoras de Educação Física diplomadas na Universidade de São Paulo (USP). Anos depois, viria a se tornar a primeira mulher a ser diretora da Escola Nacional de Educação Física.

"Maria Lenk foi uma mulher à frente do seu tempo. Ela também se via assim nos anos 30, pois abriu as portas de tudo. Era professora catedrática, mas não se acomodou na academia. Não hesitava", revela o professor de Educação Física e especialista em estudos olímpicos Lamartine da Costa, que cuida do museu virtual da nadadora. O acervo reúne mais de 10 mil peças.

Leitora voraz, pesquisadora incansável, escreveu seis livros. Um deles um clássico em administração do esporte, de 1941. "Ela era uma professora famosa da Escola Nacional de Educação Física, pois tinha sido recordista mundial de natação e se distinguia. Maria Lenk fez o segundo livro sobre gestão de esporte no país. Era um livro científico sobre gestão esportiva. Mas ela não se prendia só a isso. Também era mais ligada à natação e ao treinamento esportivo moderno e testou vários equipamentos de tecnologia avançada que poderiam ser aplicados à Educação Física. Era pioneira em pesquisa do esporte", destaca Lamartine.




CHARLOTTE COOPER. A tenista fez história ao ser a primeira mulher a ganhar uma medalha de ouro nas Olimpíadas
Crédito: Reprodução da internet
LENDAS. Maria Lenk ao lado da recordista Piedade Coutinho, que foi aos Jogos de 1936, 1948 e 1952
Crédito: Atlas do Brasil






EM CASA. Maria Lenk saltando na piscina do Flamengo,
onde veio a falecer
Crédito: Agência O Dia








Elas não se curvaram às convenções sociais nem cederam a qualquer tipo de discriminação, até mesmo a racial, para disputar uma Olimpíada. Lendas vivas do esporte brasileiro, as ex-atletas Deise Jurdelina de Castro, 82 anos, e Mary Dalva Proença, 81 anos, nadaram contra a corrente na conservadora década de 1950 ao provar que era possível construir uma carreira de sucesso sem abrir mão da família.

MARY DALVA relembra os tempos em que era estrela dos saltos ornamentais.
Crédito: Márcia Vieira


Uma das primeiras atletas negras do atletismo brasileiro, Deise descobriu com o irmão Darci a vocação para a corrida, nas brincadeiras de pique nas ruas de Vila Matilde, em São Paulo. “De tanto correr chamei a atenção na escola. Nem sabia direito o que era aquilo, me mandavam correr e eu corria. Tinha 14 anos quando bati o recorde sul-americano nos 200 metros e apenas oito meses de atletismo”, relembra a ex-atleta, que sofreu vários episódios de racismo ao longo da carreira. Ao ficar sem técnico no Palmeiras, Deise tentou entrar em outros clubes, como o Tietê, mas foi recusada por ser negra.A discriminação a perseguiu até Helsinque.



DEISE orgulha-se de ter batido o recorde sul-americano na pista do Fluminense: 'Era um clube que não aceitava negros'
Crédito: Arquivo Pessoal Deise Jurdelina


"Fomos convidadas a trocar o segundo andar pelo quinto para dar lugar às americanas, que não queriam se misturar. O major Padilha (Sylvio, chefe de missão) queria que eu cedesse. Não cedi e tive um desgosto grande. Havia pessoas que aceitavam isso fácil, mas eu, não. Fui criada assim, meu avô, que era americano e veio para o Brasil pós-guerra, deu uma educação muito firme para a família toda", relembra Deise, que não foi longe nos 200m, mas conquistou o 12º lugar no salto em altura com 1,50m, melhor classificação da equipe feminina nos Jogos.

Deise ainda ganhou uma medalha de prata no salto em altura no Pan-Americano de 1955, do México. “Virava guerreira quando competia. Era uma honra vestir a camisa do Brasil.”

DEISE volta à pista do complexo do Ibirapuera, onde brilhou nos anos 1950
Crédito: Márcia Vieira


Considerada um fenômeno no atletismo brasileiro, Deise abandonou o esporte no auge da carreira, logo após trazer mais uma medalha. "No Sul-Americano, depois que saltei e ganhei a prova, me jogaram dentro da piscina e eu disse que nunca mais voltaria ao atletismo. E não voltei. Sou muito radical, hoje nem assistir, assisto. Desliguei total. Mas não tenho frustração", garante Deise, que atualmente se dedica ao trabalho comunitário e às causas ligadas aos idosos, no bairro do Jabaquara, na capital paulista.



DE PIABINHA DE BELÉM À SEREIA AUSTRALIANA

Se em Helsinque-1952 Deise era uma das três brasileiras da equipe de atletismo, em Melbourne-1956, Mary Dalva foi a única mulher da delegação, em uma época em que os ideais feministas da escritora francesa Simone de Beauvoir ecoavam pelo planeta.

A Piabinha de Belém do Pará descobriu sua paixão pelos saltos ornamentais quase que por instinto. Em plena Segunda Guerra Mundial, a pequena Mary cismou de improvisar uma pesada tábua de madeira como trampolim para brincar no rio do quintal de casa. Brincadeira que selou seu destino, quando sua família se mudou para o Rio.



PAIXÃO PELA ÁGUA. Mary Dalva ao lado da nadadora Maria Lenk, em foto histórica
Crédito: Arquivo Pessoal Mary Dalva


“Eu nadava na piscina do Fluminense e depois relaxava brincando no trampolim. O técnico de saltos viu e me chamou para treinar. Três meses depois, fui campeã carioca e sul-americana de saltos ornamentais”, conta Mary, que nada até hoje 1.500m e coleciona mais de 600 medalhas no mural de sua casa, na Ilha de Guaratiba.

Mary Dalva tinha apenas 21 anos quando representou o Brasil nos Jogos de Melbourne-1956. Estrela dos saltos ornamentais, em uma época em que o trampolim era de madeira, o que impossibilitava uma grande impulsão, a nadadora chegou em 16º lugar na competição.

“Fui a primeira mulher a representar o Brasil no trampolim. É um esporte difícil, mas muito bonito. É uma pena que até hoje não invistam tanto no esporte”, critica.

A cinco meses dos Jogos do Rio, Mary Dalva gostaria de realizar um sonho: “Nem que fossem apenas três passinhos, queria muito carregar a tocha. Seria um momento único e inesquecível.”

SEREIA NAS RAIAS autralianas, Mary Dalva encerrou a carreira após os Jogos, pois voltou a Belém
Crédito: Arquivo Pessoal Mary Dalva




A lenda do atletismo Elizabeth Clara Muller

Foi nos anos 1920 que o atletismo nasceu no Brasil em competições organizadas em São Paulo pelo Germânia, conhecido hoje como Pinheiros, ou no Sogipa, em Porto Alegre. Celeiros de atletas, passaram por lá as pioneiras do esporte no país como Guel Schwarzhaupt e Elizabeth Clara Muller. Ao lado das desbravadoras Benedita Souza Oliveira, Gertrudes Ida Morg, Lucila Pini e Melânia Luz, Elizabeth fez parte da equipe brasileira que disputou pela primeira vez as provas de atletismo nos Jogos de Londres, em 1948. Ela chamava a atenção pela grande versatilidade. Tanto que competiu em quatro provas distintas na Inglaterra, nos 100m, 4x100m, salto em altura e no arremesso de peso. Em 16 anos de carreira, a paulistana colecionou muitos títulos. Foi seis vezes campeã sul-americana, no salto em altura, no arremesso do peso, nos 200m e nos 4x100m. Também abocanhou 24 Brasileiros de atletismo, sendo dona do maior número de títulos da história da competição, disputada até 1985. Descendente de alemãs, Elizabeth deu os primeiros passos no esporte, no SC Germânia. "Um professor, que tinha olho clínico, percebeu as minhas aptidões. Tive sorte”, declarou a lendária atleta, muitos anos depois ao site da CBAt. Em um dos momentos mais gloriosos de sua carreira, ela, então com 27 anos, ganhou a medalha de bronze no salto em altura, com a marca de 1,45m, no Pan-Americano de Buenos Aires, em 1951.







Nos estádios de atletismo, elas escolheram saltar. Wanda dos Santos e Aída dos Santos desafiavam o tempo e o espaço para superar barreiras ou ultrapassar imensos sarrafos. Em uma época em que viver apenas como atleta era algo impensável, o amor pelo esporte as empurrava a superar os obstáculos da vida. Unindo força e doçura, viraram referências como as únicas mulheres a representar o país em Roma-1960 e Tóquio-1964, respectivamente. A luta naquelas edições dos Jogos poderia até ser solitária, mas elas nunca desistiam.

A inspiração de Wanda para competir nas barreiras veio das provas de hipismo que via na infância. Os saltos dos cavalos ficaram na memória da menina paulistana, que chegou a duas Olimpíadas no atletismo — esteve também em Helsinque-1952. “Antes do atletismo, eu jogava basquete. Saltava bem”, lembra Wanda.

REFERÊNCIA Wanda esteve nos Jogos de 1952 e 1960. Ela foi atleta do São Paulo
Crédito: Márcia Vieira


A boa impulsão não foi usada a serviço das quadras, mas, sim, das pistas: “Conversava com a barreira: ‘Você é minha amiga. Quero treinar, não quero bater o meu joelho nem o tornozelo.' Ela me respondia com vitórias.”

Wanda treinou no Palmeiras até seguir para o São Paulo, sob o comando do alemão Dietrich Gerner: “Ele foi tirando todos os meus defeitos.” Assim, aos 20 anos, estava nos Jogos Olímpicos pela primeira vez. Lá, ela e Deise Jurdelina, únicas atletas negras da equipe, chamavam a atenção das finlandesas. “Passavam o dedo na nossa pele, mas com curiosidade”, lembra.

A determinação fez Wanda chegar a mais uma Olimpíada, em Roma. Mas não foi fácil. Após Helsinque, ela encarou desgastante rotina em São Paulo, revezando-se entre os treinos e o trabalho de escriturária no Sesi. Acordava às 5h30, chegava às 7h ao trabalho e saía no fim da tarde para o Morumbi. Só dormia à meia-noite: “Tinha que trabalhar. Era puxado.”

Wanda ficou fora de Melbourne-1956, mas voltou a sentir a emoção de ser uma atleta olímpica quatro anos depois. Não passou das eliminatórias, mas seu nome já estava na história olímpica brasileira: “Quero deixar a minha imagem formosa, para que se lembrem com carinho.”






A PERSISTÊNCIA DE AÍDA DOS SANTOS

Quatro anos depois, coube a Aída dos Santos ser a única mulher da delegação brasileira, coroando uma história de muita luta e superação. Criada no Morro do Arroz, em Niterói, ela enfrentou resistência em casa. Começava na carreira quando ganhou uma medalha e levou uma surra em casa. “Meu pai perguntou: ‘Trouxe dinheiro?’ Disse que não. Ele me bateu e falou: ‘Pobre tem que trabalhar para ajudar no sustento da família.'"

A persistência continuou sendo a marca de Aída. Tanto que ela teve de provar mais de uma vez que merecia uma vaga nos Jogos de Tóquio. “Existe um índice para quem faz prova individual, como atletismo e natação. Eu tinha feito um índice em São Paulo, mas me obrigaram a fazer cinco eliminatórias”, conta.

GUERREIRA Aída, de 79 anos, ficou em quarto lugar em Tóquio-1964 ao saltar 1,74m
Crédito: Estefan Radovicz/Agência O Dia


Mesmo já tendo atingido a marca anteriormente, o dia 7 de setembro de 1964 foi estipulado como a data da última eliminatória para ir à Olimpíada. Antes de seguir para o Maracanã, no entanto, Aída teve que cumprir todos os afazeres domésticos. “Minha mãe falou: ‘Você pode ir. Mas antes vai ter que carregar água, encerar a casa, fazer comida e depois vai’. Chegando lá no Maracanã, o técnico perguntou se tinha me concentrado. Eu falei: ‘Concentrei. Lavei roupa, carreguei água, passei e cozinhei. Mas vim falar para o senhor que não quero mais saber da Olimpíada'”.

Convencida a tentar o índice novamente, Aída saltou 1,65m, garantindo a vaga em Tóquio. Mas não entendia o motivo de os dirigentes terem relutado tanto em levá-la à Olimpíada: “Até hoje eu só penso que é por ser mulher e negra.”

A Olimpíada seria logo no mês seguinte. “Como eles ignoraram o meu primeiro índice, eu não tinha roupa para desfilar na Olimpíada. Falei para eles que tinha um uniforme do Campeonato Ibero-Americano, na Espanha. A saia era cinza, a blusa era branca, um paletó azul-marinho e, no bolso, as cinco argolas olímpicas. Disseram que era com essa roupa mesmo que eu iria desfilar.”



UMA LUTA SOLITÁRIA EM TÓQUIO

Aída sofreu com a solidão desde a chegada a Tóquio. “Fiquei sozinha na portaria e tinha uma ficha. Não sabia inglês, japonês, então, piorou. Preenchi a data do nascimento porque apontaram e fizeram assim (canta ‘Parabéns a você’)”.

Sem técnico e calçados para o piso de tartan, ela contou com a ajuda do cubano Lazaro Betancourt para conseguir um calçado de corrida. Guerreira, conta ter sido chamada de turista por outros membros da delegação, mas mostrou que não estava a passeio.

Torceu o pé nas eliminatórias do salto em altura, mas não desistiu da final e ficou em quarto. “O que doeu mais foi representar o Brasil e não ter nenhum dirigente para me levar e nem para me buscar na pista.”




EM FAMÍLIA Aída com a filha Valeskinha, campeã olímpica no vôlei
Crédito: Arquivo O Dia


Aída ainda disputou os Jogos da Cidade do México-1968, no pentatlo. Durante a fase de preparação, se machucou, mas não desistiu de competir, mesmo com dor. Ficou em 20º lugar, mas com a sensação de dever cumprido por ter representado o país. “Além de ser competitiva, eu sou patriota. Quando coloco o verde e amarelo, eu sinto que cresço”, resume.

Quarenta anos depois, foi a vez de ela vibrar como torcedora numa Olimpíada: a filha Valeskinha saiu de Pequim-2008 como campeã olímpica no vôlei.







Três décadas antes de a saltadora Maurren Maggi conquistar o topo do mundo, em Pequim-2008, Esmeralda de Jesus, Conceição Geremias e Silvina das Graças Pereira davam as cartas no atletismo feminino brasileiro. Um trio de ouro que descobriu a vocação de forma inusitada.



A MAIS VELOZ DAS AMÉRICAS

Craque do handebol, Esmeralda de Jesus não entendeu nada quando foi cedida pelo técnico para a equipe de atletismo. Mas os resultados provaram que ele estava certo. A joia mineira não só foi a primeira brasileira a conquistar uma medalha de ouro no torneio feminino em um Pan-Americano, o de Caracas-1983, na prova dos 100m, como também foi pioneira no salto triplo.
Em 1986, estabeleceu a melhor marca mundial no Campeonato Universitário dos Estados Unidos. Mas o recorde não foi oficializado, pois ocorreu antes de a prova entrar no programa olímpico. Um resultado mais do que natural para quem ganhou uma medalha, a de prata, logo na quarta competição da carreira— o Sul-Americano Juvenil, no Peru — e disputou a primeira Olimpíada, a de Montreal-1976, com 17 anos.



JOIA MINEIRA Esmeralda de Jesus disputou duas Olimpíadas e ganhou o ouro no Pan de Caracas-1983
Crédito: Márcia Vieira

“Era magra, pesava 49kg e muito pequena. Era um palito engomado”, gargalha Esmeralda, sem esquecer a primeira Olimpíada. “Eu me lembro da saída dos 100m. E estava do lado da recordista mundial, a Irena Szewinska. A mulher era enorme, uma perna dela dava duas da minha”, relembra a ex-atleta, que correu os 100m em 11s77. Mesmo não passando da segunda eliminatória, ela aprovou o resultado: “Era muito nova, foi bom, gratificante.” Depois dos Jogos, Esmeralda abriu outra frente. Foi uma das primeiras atletas a treinar nos Estados Unidos: “O primeiro ano foi muito difícil, pois sentia muita saudade de casa, não falava muito bem o inglês e estava grávida. Mas 25 dias depois que meu filho nasceu já treinava.”

Em 1980, mesmo tendo conquistado o índice olímpico e estando no auge da carreira, Esmeralda não foi aos Jogos de Moscou. “Morava nos Estados Unidos e queriam que eu viesse ao Brasil, mesmo já tendo o índice. Não fui”. Mas dos Jogos de Los Angeles, ela não escapou: “Foi complicado, treinei muito, só que o resultado foi ruim. Na noite anterior, não dormi e no dia da prova me senti mal, estava apática”, conta a atleta, que, três dias antes, havia conseguido o seu melhor resultado nos 60m e era uma das favoritas no salto em distância. “Tinha chance de subir ao pódio, mas não deu. Houve um desequilíbrio mesmo. Foi inexplicável o que senti. Até hoje não entendo o que aconteceu”, lamenta a joia mineira, que até hoje não abandonou o atletismo. Após ser técnica e vice-presidente da Federação Paulista de Atletismo, por quatro anos, trabalha no setor administrativo do Centro de Excelência Esportiva de São Paulo. “Sou responsável pelos uniformes dos atletas. Estou feliz”, garante.



A SUPERMULHER

Para brincar de boneca ou de casinha, na zona rural de Campinas, a pequena Conceição Geremias impunha uma condição às amiguinhas. “Só brinco se antes pudermos apostar corrida ou pular o pauzinho.” Foi assim a infância toda. Quando não estava plantando arroz, feijão e milho ou na capina, ajudando o pai, a menina esmirrada fugia da lida correndo solta e feliz. “Como trabalhava na roça e meu pai só nos soltava meia hora antes da aula, a gente tinha que ir correndo para a escola, antes de fechar o portão. Eram 4km de subida, descalça e morro acima”, diz, bem-humorada.

O preparo físico impressionante chamou logo a atenção da professora de Educação Física da escola e da seleção local. E com apenas seis meses de treinamento, Conceição já era titular da seleção brasileira adulta. “Com 14 anos, fui ao primeiro Sul-Americano adulto, em Lima. Peguei o 4º lugar nos 200 metros rasos e o 4º, no salto em distância”, relembra, orgulhosa. Apesar do resultado, a dura rotina não mudou: “Para ir à escola e treinar, tinha que correr 16km diários. Só melhorou mesmo quando a prefeitura colocou uma perua para me buscar em casa.” Nessa época, Conceição já se destacava nas provas que reuniam velocidade e força.



MAIS UMA OLIMPÍADA Conceição Geremias esteve em três edições dos Jogos e estará no Rio como voluntária
Crédito: Arquivo/CBAt e Márcia Vieira

Brilhava tanto que em 1976, com 20 anos, conquistou o índice olímpico para disputar o pentatlo nos Jogos de Montreal. Mas a felicidade se transformou em lágrimas, quando foi preterida pelo COB. “Achavam que eu era muito jovem e inexperiente. Foi uma frustração tão grande que chorei seis meses seguidos, porque não me conformava”, revela. Consolada pela mãe, Conceição transformou a mágoa em recordes. Bateu um atrás do outro. Treinou dobrado e conseguiu entrar no ranking das dez melhores atletas do mundo no pentatlo. “Foi um sonho ir aos Jogos de Moscou. Bem antes, comecei a estudar a história da Rússia, sua cultura, sua língua. Tinha uma música do Luis Gonzaga, que virou meu mantra: “Ontem sonhei que estava em Moscou dançando um pagode russo na boate Cossaco.”

Em grande forma, Conceição conseguiu o índice olímpico e realizou seus sonhos. “Quando cheguei à Vila Olímpica, tinha a sensação de levitar. Estava no céu, ao lado de atletas de todos os cantos do mundo. Quase levitei quando conheci o Teatro Bolshoi, que tinha visto antes no filme 'O Fantasma da Ópera'. Tudo parecia um sonho”, ressalta, emocionada. Mas a emoção tirou seu foco e comprometeu sua performance. “Fiquei tensa, a emoção acabou me atrapalhando. Fiquei em 14º no pentatlo”, afirma.

Bem mais experiente, Conceição participou de mais duas Olimpíadas, a de Los Angeles-1984 e a de Seul-1988. “Foi tudo dentro do esperado, meu rendimento não caiu tanto. Tinha mais desenvoltura, mas a disputa foi bem mais puxada do que em Moscou, onde teve o boicote”, argumenta. Em Los Angeles, foi a oitava melhor no Grupo 1 do salto em distância, com 6,04m. E, no heptatlo, chegou em 21º lugar, com 4.305 pontos. Em Seul, somou 5.508 pontos, terminando em 22º lugar.

Mesmo não conquistando uma medalha olímpica, Conceição Geremias entrou para a história do esporte brasileiro. Além de bater vários recordes internacionais, ela foi a segunda mulher brasileira a conquistar uma medalha de ouro, em um Pan-Americano, o de Caracas, em 1983. “Fiquei feliz pela vitória mas não tinha noção do significado. Quando voltei ao Brasil, tinha uma multidão me esperando. Tinha até carro do Corpo de Bombeiros. Só consegui comemorar com a minha família, cinco dias depois, isso mesmo porque fugi das reportagens”, diverte-se a atleta, que, na ocasião, também bateu o recorde sul-americano ao atingir a marca de 6.017 pontos no heptatlo.

Uma proeza tão grande que só foi superada 25 anos depois quando Lucimara Silvestre da Silva atingiu 6.076 pontos na Olimpíada de Pequim-2008. Com 59 anos, Conceição Geremias ainda exibe forma física invejável. “Estou competindo até hoje. Já tenho dez títulos mundiais, no master, e ganhei medalhas de ouro em provas diferenciadas”, diz, orgulhosa, a superatleta, que é presidente de uma ONG, em Campinas, a Acecamp. “Hoje meu objetivo principal é levar para o maior número de crianças uma prática esportiva. Sempre digo a eles que com muito treino e vontade fui a três Olimpíadas e conheci o mundo. Se eu consegui, eles também podem”, acredita a atleta, que vai participar de sua quarta Olimpíada no Rio, agora como voluntária. Um feito para poucos.



ATLETISMO NA VEIA

Não é exagero afirmar que Silvina das Graças Pereira nasceu pronta para o atletismo. Afinal, como explicar a trajetória de uma adolescente que logo no primeiro salto tenha batido o recorde dos antigos Jogos Juvenis promovidos pelo extinto Jornal dos Sports? “Não sabia nem pular muro, mas no primeiro salto da minha vida fiz 4,11m e bati o recorde. Nunca havia pisado antes em uma pista de atletismo. Minha vida mudou ali”, relembra a ex-atleta, que foi parar na competição após vencer uma corrida no pátio do colégio.



MEDALHISTA Silvina das Graças foi aos Jogos de Montreal e ganhou a prata no Pan de Cali e o bronze no Pan da Cidade do México
Crédito: Arquivo pessoal e Bruno de Lima/Arquivo O DIA (21/10/2015)

Capa do jornal do dia seguinte, Silvina foi procurada para treinar em vários clubes. Mas, como seu pai era botafoguense, foi parar em General Severiano. No Botafogo, ela foi tricampeã de atletismo carioca (1965-1966 e 1967) e, no Sul-Americano de Quito, em 1969, ganhou quatro medalhas de ouro. E, há um ano antes dos Jogos de Munique, levou a prata no Pan-Americano de Cali, em 1971, com 6,35m no salto em distância. Mesmo no auge, Silvina não foi à Olimpíada de 1972 por causa de uma mentira, segundo ela. Após o fim de uma prova no Mineirão, chamou o chefe da delegação, Hélio Babo, para pedir dispensa do Sul-Americano, porque seu pai havia sofrido um derrame e a família precisava de ajuda. “Ele não se opôs, mas um repórter ouviu de longe o fim da conversa e o questionou. E, para a minha surpresa, o Dr. Helio disse que eu não iria pois estava reivindicando uma casa e outras besteiras”, conta, indignada. A mentira não só a tirou da Olimpíada como infernizou sua carreira.

Arrasada, Silvina abandonou o atletismo. Mas por insistência de seu técnico, voltou a treinar um ano e meio depois, à noite, na pista de Educação Física da Urca: “Trabalhava como datilógrafa no CND e saía de lá às 17h para treinar. Depois de algum tempo, os resultados começaram a aparecer.” Na inauguração da pista do Estádio Célio de Barros fizeram uma grande festa e chamaram atletas consagrados.
“Fui lá e e ganhei de todo mundo, até da campeã europeia. Passei a ser uma pessoa maravilhosa”, diz, sem esconder a ironia. Um ano antes de disputar os Jogos de Montreal, Silvina conquistou o bronze nos 200m no Pan da Cidade do México, novo recorde sul-americano. Mas, em Montreal, não repetiu os bons resultados e não passou da segunda eliminatória no salto em distância e nos 200m. “Não tem justificativa, não me perdoo até hoje. Perdi para mim mesmo”, confessa.

Passadas quase quatro décadas, Silvina vive do salário de professora aposentada. Sua maior preocupação é levar um pouco de cultura e educação para a comunidade da Mangueira, onde vive há 66 anos. Para isso, preside desde 2000 a biblioteca local, mantida com muita dificuldade. “Gosto do meu trabalho, mas é parado. Aqui pago contas e faço de tudo para a biblioteca não fechar. Não temos telefone nem computador, mas temos livros. É um bom começo para mudar.”







Resistência elas tinham de sobra. Isabel Salgado precisou ser forte para encarar as rivais nos jogos de vôlei e aliar a vida de atleta ao papel de mãe. Eleonora Mendonça teve que ser incansável para lutar pela inclusão da maratona feminina no programa olímpico e só respirar aliviada com o feito conquistado. E Soraya Vieira Telles mostrou fôlego para bater recordes que duram até hoje no atletismo. Ao trio, foi fundamental ter paixão e ideais para abrir caminhos no esporte.

Nas quadras, Isabel integrou a primeira seleção brasileira feminina de vôlei em Olimpíadas, em Moscou-1980. Era o início da trajetória nos Jogos do vôlei brasileiro, que tem hoje o status de bicampeão olímpico com as mulheres. “A minha geração teve uma contribuição grande no sentido de abrir portas, de tornar o vôlei mais popular. Foi com ela que o boom do vôlei se deu. Esse papel a gente fez bacana”, diz Isabel.

ETERNA MUSA, Isabel Salgado, de 55 anos, esteve em duas Olimpíadas, em 1980 e 1984
Crédito: Bruno de Lima


Na sua época, o retorno financeiro estava longe de ser como atualmente: “O vôlei não dava grana, não era um esporte ainda conhecido. Quando a gente conseguiu dar os primeiros passos do vôlei, foi muito bacana. Foi a minha intuição de seguir uma profissão que não era uma atividade que poderia me dar independência, mas acabou me dando. Não fui buscando isso. Busquei o que eu gostava de fazer.”

Mãe de Pilar, Maria Clara, Carol e Pedro, Isabel conciliou a maternidade com o esporte. Os filhos sempre estavam por perto e Maria Clara, Carol e Pedro seguiram seu caminho na modalidade. “Eles nunca competiram com o vôlei. O lugar deles sempre esteve muito claro”, diz ela, que jogou grávida de Maria Clara: "Se eu ficasse pensando no momento ideal para ter filhos, eu não teria tido. Não tinha um momento ideal. Eu era uma jogadora, vivia do meu corpo".



Com o status de musa, Isabel também garante ter lidado bem: “Eu nunca embarquei nessa porque também tive rótulos de indisciplinada, contestadora, rebelde. Nunca acreditei muito nem que eu era indisciplinada nem que era musa.”

Sua amiga Jackie Silva também carregou o rótulo de rebelde e foi cortada da Seleção após vestir o uniforme do avesso, recusando-se a fazer propaganda do patrocinador de graça, em 1985. Juntas, elas fizeram história, mas sofreram uma dura derrota: para os Estados Unidos, em Los Angeles-1984, após abrirem 2 sets a 0. “Lembro até hoje a dor que eu senti quando perdi aquele jogo. Foi muito marcante aquela derrota”, recorda Isabel.

CRAQUE nas quadras e na areia, Isabel conseguiu conciliar a carreira com a maternidade
Crédito: O Dia




PIONEIRISMO NA MARATONA

Nas pistas, Eleonora também foi pioneira e participou do movimento pela inclusão da maratona feminina no programa olímpico. Sua paixão pelo esporte começou no tênis, tendo Maria Esther Bueno como ídolo. Até que em 1972, fazendo mestrado em Educação Física nos Estados Unidos, encantou-se pela corrida. A vitória de Frank Shorter na maratona de Munique-1972 foi marcante. “Foi o início do boom das corridas nos Estados Unidos”, conta.

PIONEIRA: Eleonora Mendonça, 67 anos, foi a primeira brasileira a disputar uma maratona olímpica, em 1984
Crédito: Arquivo pessoal Eleonora Mendonça e Ernesto Carriço


De volta ao Brasil, passou a dar voltinhas no campo do Fluminense. Foi convidada para disputar a prova dos 1.500m no Sul-Americano do Chile, em 1973, mas o espírito aventureiro falou mais alto e Eleonora seguiu com os planos de viajar de Kombi do Rio até os Estados Unidos. "Foi uma baita experiência. Você não sabe o dia de amanhã e o que vai encontrar quando faz a curva. Você acaba se conhecendo. Você cresce muito quando faz esse tipo de aventuras", lembra. Na volta, ainda conseguiu disputar o Sul-Americano porque o golpe de estado no Chile fez a competição ser adiada para 1974.



A corrida acabou entrando de vez na sua vida: “Foi criado o Comitê Internacional de Corredores e me chamaram para ser presidente no segundo ano. Um dos objetivos era convencer o Comitê Olímpico Internacional de que as mulheres estavam prontas para competir com as mesmas oportunidades dos homens na Olimpíada. Em 1981, o COI aceitou a maratona.”

Ir a Los Angeles, em 1984, não foi fácil, mesmo após vencer a seletiva olímpica. “Fui a primeira. Dois dias depois, saiu a convocação, dizendo que só iriam indicar o representante masculino (Elói Schleder)”. Mas Eleonora não aceitou a decisão e lutou até disputar os Jogos de 1984: “Eu me lembro da largada. Pensei: ‘Não estou acreditando que vou dar a largada’. Ali a ficha caiu.”

Além de marcar seu nome na história olímpica, Eleonora ajudou a popularizar as corridas de rua no Brasil. Fundadora da Printer, empresa especializada nesse tipo de evento, ela idealizou a primeira Maratona Internacional do Rio de Janeiro, em 1979. "Eu nunca poderia imaginar que a aquela semente que nós colocamos cresceu e deu nisso. É muito bacana. Isso me dá uma satisfação de que o trabalho inicial teve muitos bons frutos", diz.

LOS ANGELES: Corredora brasileira chegou em 44º lugar com 2h 52min19s na prova de maratona
Crédito: Arquivo pessoal Eleonora Mendonça




FÔLEGO NAS PISTAS

Soraya Vieira Telles é um nome inesquecível na história do atletismo brasileiro. A mineirinha de Barbacena era ainda uma adolescente quando se mudou para o Rio sonhando em jogar basquete, mas acabou brilhando em outra modalidade, o atletismo. Nas pistas não só conquistou a medalha de bronze nos 800m no Pan de Indianápolis-1987 como defendeu o país na Olimpíada de Seul-1988. “Sempre tive muito apoio em casa. Minha mãe era apaixonada por esporte e sempre foi a grande incentivadora", ressalta.



O incentivo materno aliado ao seu talento natural para as provas de longa distância a levou longe. Tanto é que até hoje dois dos seus recordes não foram quebrados: o sul-americano da milha, de 1988, e o dos 1.500m do Troféu Brasil, de 1993. “É um marco. Fui a primeira na América do Sul a correr os 800m abaixo de dois minutos. Tenho dois recordes que perduram há mais de 24 anos. Mas tudo o que eu fiz foi pelas pessoas que acreditaram em mim, pela minha família”, revela.

DESTAQUE NAS PISTAS, a fundista Soraya Vieira Telles, de 57 anos, tem recordes que duram até hoje
Crédito: Arquivo CBAt e Márcia Vieira


Aos 57 anos e em grande forma, trabalha atualmente como personal trainer em Sorocaba (SP). Mas quando relembra o passado tem a sensação de dever cumprido nas pistas. "Tenho muito orgulho de tudo o que fiz no esporte, das minhas conquistas, dos meus resultados, apesar do pouco investimento. Encontrei uma pessoa que foi muito importante para mim, meu técnico e marido, Pedro. Nós dois juntos batalhamos para que a gente conseguisse participar das competições", diz.

Ela conta ter sofrido com racismo durante a carreira, mas não deixou o preconceito prejudicá-la. "Nós tivemos um pouco de dificuldade depois que o meu marido passou a me treinar. Percebíamos que nós não tínhamos o mesmo apoio que os outros atletas. Independentemente de as pessoas auxiliarem ou não, conseguimos colocar nosso nome na história do atletismo", destaca Soraya, que gostaria que os atletas tivessem um reconhecimento maior: “O Brasil é um país que não tem memória. Acredito que tinha que ter mais respeito com tudo o que foi feito ao longo destes anos, não só comigo, mas com todos os atletas”, critica.

AMIGAS: Eleonora e Soraya se conheceram nas pistas. Em reencontro recente repetiram a mesma foto do passado
Crédito: Arquivo pessoal Eleonora Mendonça e Márcia Vieira


Para os Jogos Olímpicos do Rio, em agosto, ela aposta numa medalha de Fabiana Murer, no salto com vara. "Espero que, passada a Olimpíada, continue o investimento na modalidade. Para fazer um atleta para disputar uma medalha numa Olimpíada e num Mundial, são necessários anos de investimento", defende.







Elas treinaram à exaustão, obstinadas em vencer no esporte. Foram anos de sacrifício até alcançarem o estrelato. Vitoriosas, a judoca Soraia André e as rainhas das cestas Maria Helena Cardoso, Hortência e Paula sabem o preço do sucesso.

Sobrevivente no tatame da vida, Soraia André acabou 'Conquistando o impossível', como diz a letra de sua canção preferida, sucesso na voz de Jamily. Afinal, não é toda menina negra da periferia paulista que consegue ir a duas Olimpíadas, ganhar três medalhas em Jogos Pan-Americanos e vencer dez vezes o Brasileiro. Uma façanha ainda maior para quem começou a aprendeu os segredos do tatame em uma época em que o governo militar sancionou decreto que proibia as mulheres de lutar.



Mas o sucesso lhe custou muito caro. Pensamentos suicidas, uma breve internação em uma clínica psiquiátrica e a perseguição implacável da Confederação Brasileira de Judô (CBJ) a levaram ao fundo do poço. De onde voltou transformada como a fênix.

FÊNIX. Soraya André não se curvou às leis do Governo Militar, nem às agruras da vida para vencer no tatame
Crédito: Márcia Vieira


“Após perder a luta (e ser eliminada dos Jogos de Barcelona), passei a noite toda andando pela vila olímpica. Imagina a minha cabeça, eu tinha certeza de que iria muito bem... Passei a ouvir vozes na minha mente. 'Quatro anos se dedicando para nada. Você não serve para nada. Você lutou e ninguém veio te dar um abraço? Por que você não se mata?. Estava muito tensa e faltou um triz para me matar'”, revela, pela primeira vez.

SORAIA ANDRÉ, no alto do pódio: uma rotina na carreira. À direita, com o pai, Ismael Laércio André.
Crédito: Acervo Museu de Santo André Dr. Octaviano Armando Gaiarsa


Na dolorosa solidão da derrota, Soraia tentou seguir em frente. Inconformada com o descaso de anos com o judô feminino, resolveu cobrar da CBJ o repasse da verba das atletas do Campeonato Internacional Feminino de Fukuoka, no Japão, concedida pela própria organização do evento. A confederação engoliu em seco, repassou o dinheiro, mas não a perdoou. Antes da seletiva do Mundial, em 1993, Soraia recebeu um telegrama que decretou sua aposentadoria.A CBJ decretou que mulheres com 28 anos ou mais não poderiam mais participar das competições. Um ippon que acabou com a sua carreira e por pouco com a sua sanidade mental. Mas Soraia não se calou. Tingiu com a ajuda da mãe o quimono branco de preto, colocou no peito as três medalhas do Pan, e fez um protesto silencioso na arquibancada da AABB, no Rio, durante a seletiva do Mundial. Ao ser reconhecida pelos jornalistas desabafou: “Mataram Soraia André."

Proibida de competir, surtou. “Esse protesto quase acabou com a minha carreira e com a minha vida. Eu enlouqueci, surtei de parar em hospital psiquiátrico. Eu só vivia o judô e me tomaram isso. Um belo dia, acordei e imaginei que estava lutando no tatame, mas não estava e fui internada”, diz, emocionada.
A temporada no hospital psiquiátrico foi curta, mas impactante. “Passei de dois a três dias lá, vendo pessoas conversando com a parede e eu gritando: 'Não estou louca”', relembra.

SORAIA ANDRÉ fez um protesto silencioso na arquibancada da AABB durante a seletiva do Mundial de 1993
Crédito: Nei Lima


Mas, ao chegar ao fundo do poço, Soraia André emergiu e voltou ainda mais forte. Hoje, divide o tempo dando aulas de judô a crianças carentes em Santo André (SP), ou prestando atendimento psicológico a jovens atletas. Nas horas de lazer, pode ser vista cantando no coro da Igreja Evangélica Povo Livre. “Quando estava internada na clínica psiquiátrica, refleti sobre tudo e lembrei do Deus da minha avó. Prometi a Ele que, se saísse dali, iria conhecê-lo. Hoje, posso dizer que conheço Deus. Foi Ele que me tirou da comunidade, me fez conhecer 20 países e me deu a chance de contar a minha história."



Uma técnica vitoriosa nas quadras

Muitos anos antes de a Rainha Hortência e de Magic Paula levarem a seleção brasileira à conquista da inédita medalha de prata, em Atlanta-1996, Maria Helena Cardoso já era a 'Dona' da cesta. Fazendo jus ao apelido como é conhecida até hoje nas quadras, comandou, ao lado de lendas como Nilza, Norminha, Laís Elena, Heleninha e Marlene, entre outras, a geração vencedora das décadas de 1960 e 1970, que conquistou o ouro no Pan-Americano de Cali, na Colômbia, em 1971.
Não seria sua única proeza em 50 anos da mais pura devoção ao esporte. Além de brilhar nas quadras, Maria Helena entrou para história do basquete nacional ao se tornar a primeira técnica da seleção feminina.



“Como jogadora, foram quatro Mundiais e 156 partidas pela Seleção. Como técnica, mais de 30 anos. Tudo o que eu tenho devo ao basquete”, afirma ela, que testemunhou como poucas a evolução do esporte no país. Em 1965, em uma excursão da Seleção à Europa, jogou uma partida de exibição para convencer os comissários da Fiba (federação internacional) que o basquete feminino deveria fazer parte do programa olímpico.

“Foi um jogo entre Brasil e Tchecolosváquia, em Madri. As duas equipes foram escolhidas, pois jogavam o basquete mais bonito, mais clássico da época. O jogo terminou empatado e perdemos na prorrogação. Eles ficaram encantados, mas para o basquete ser incluído dependia da aceitação do país-sede”, relembra.

Mas México e Alemanha, sedes dos próximos Jogos Olímpicos, não concordaram e o basquete entrou na Olimpíada de Montreal, em 1976, quando Maria Helena já havia parado. “Aquilo foi uma frustração para gente. Foram anos esperando”, lamenta. Se não pôde jogar uma Olimpíada no auge da carreira, ela comemorou a conquista da primeira medalha em um Mundial, o bronze em São Paulo, em 1971.

DONA DA CESTA. Em 50 anos de carreira, Maria Helena Cardoso desbravou o basquete como jogadora e técnica
Crédito: Arquivo Pessoal e Márcia Vieira


No ano seguinte, Maria Helena abandonaria as quadras para investir na carreira de técnica, depois de se formar em Educação Física. Após passar pelas principais equipes de basquete do país, em 1986, Dona fez história ao se tornar a primeira técnica da seleção brasileira. Um feito e tanto. “Na noite do Dia Internacional da Mulher, um repórter me perguntou como eu me sentia sendo a nova técnica da seleção brasileira. Levei um susto. Você está louco?”, questionei.
Não era loucura. No ano seguinte, em 1987, a técnica comandou a equipe que conquistou a medalha de prata no Pan de Indianápolis. Em 1991, a medalha foi de ouro no Pan, em Havana, no duelo final com Cuba. No mesmo ano, Maria Helena levaria a Seleção à inédita classificação para os Jogos de Barcelona-1992. Em sua primeira e última Olimpíada, levou a Seleção ao sétimo lugar. Ao fim da competição, deixou o comando da equipe e ensinamentos para várias gerações.

RECONHECIMENTO. Maria Helena ganhou uma medalha de honra ao mérito pelos serviços prestados ao basquete
Crédito: Márcia Vieira




Hortência e Paula: rivalidade e conquistas

Se coube ao lendário sexteto Maria Helena, Nilza, Norminha, Laís Elena, Heleninha e Marlene, entre outras estrelas, o papel de desbravar o basquete no Brasil, nasceu nas mãos certeiras de Hortência e Paula a missão de coroar, com a primeira medalha olímpica, várias gerações do esporte nacional. Passadas quase duas décadas da conquista da inédita prata, em Atlanta-1996, é impossível citar a façanha sem relembrar a histórica rivalidade que levou as duas ao estrelato.



Diferentes como o sol e lua, Hortência aprendeu a dar os primeiros arremessos nas quadras da cidade natal, a bucólica Potirendaba (SP). Do outro lado do Rio Tietê, a 205 km dali, a pequena Paula também impressionava pela precisão nos arremessos no ginásio da sua Oswaldo Cruz. Determinadas, cresceram treinando à exaustão, obstinadas pela paixão de vencer. Não demorou muito para que duelassem nas quadras, cada uma a seu estilo. Idolatradas por torcidas rivais, provocadas pela imprensa, tornaram-se ferrenhas adversárias, até fora das quadras.
“Elas não se falavam, eram meninas ainda. Uma queria ser melhor do que a outra. Não tinham percepção que juntas seriam mais fortes. Mas na Seleção vestiam a mesma camisa e, quando fomos treinar no interior de São Paulo, resolvi colocar as duas no mesmo quarto”, conta a técnica Maria Helena Cardoso

RIVAIS, a Rainha Hortência e Magic Paula superaram diferenças pessoais para conduzir a Seleção à inédita medalha de prata em Atlanta-1996
Crédito: Arquivo O DIA


Hortência, quando descobriu quem seria sua companheira de quarto, ligou para a técnica. “Como você me colocou no quarto da Paula? Eu não vou ficar, vou embora”, esbravejou. “Já esperando a reação das duas, Maria Helena contemporizou: “Mas, Hortência, você não vai jogar com ela? Como vai fazer na hora do jogo, vai dizer que não vai entrar porque vai jogar com a Paula?”, questionou. Uns 20 minutos depois, era Paula quem batia à porta do quarto de Maria Helena. “Oi, ‘Dona’, eu não vou ficar com ela”, relembra Maria Helena, que à época também era técnica de Paula em um clube de Piracicaba. “Você vai sim, pois vão jogar juntas. Vai lá, tranca a porta, fala o que tem que falar, mas parem com isso. Eu não vim aqui para a gente se dividir. Temos objetivos comuns e temos que estar unidas”.

PAULA E HORTÊNCIA: dois dos maiores talentos do basquete feminino brasileiro
Crédito: Arquivo Pessoal e Arquivo O DIA


Pouco tempo depois, elas se aproximaram ainda mais. “A partir da entrada da Maria Helena, olhamos para dentro. Se a gente não mudasse esse comportamento, não iria evoluir. Depois fomos para o jogo da seleção do mundo. Viajamos juntas, ficamos no mesmo hotel e conversamos bastante. Quando éramos mais jovens, nos faltou essa consciência de que juntas fazíamos a Seleção ser ainda mais forte”, afirma Magic Paula. Hortência hoje agradece à rivalidade: “Falo que a Paula foi a pessoa mais importante da minha vida, pois eu não seria nada se não fosse ela. Eu treinei a minha vida inteira para ganhar dela. Tenho um respeito muito grande e admiração. Agradeço muito por ela ter nascido na minha geração”.







Quando as duplas Jacqueline Silva-Sandra Pires e Adriana Samuel-Mônica Rodrigues chegaram à final do vôlei de praia nos Jogos de Atlanta-1996, um feito inédito já estava assegurado no esporte brasileiro. A cor da medalha — ouro ou prata — ainda seria definida, mas o resultado não tiraria daquelas quatro guerreiras a honra de serem as primeiras mulheres do país consagradas no pódio olímpico. A coroação veio em 27 de julho e foi a recompensa para 64 anos de sacrifício de muitas outras mulheres que, desde Maria Lenk, em 1932, venceram seus próprios limites e também as barreiras do preconceito.



Para Jacqueline, o ouro em Atlanta foi um renascimento. Em 1986, um ano após ser cortada da Seleção de vôlei, ela deixou o país com fama de rebelde rumo à Califórnia. Lá, tornou-se a Jackie Silva, rainha das areias, bem antes de o vôlei de praia entrar no programa olímpico. "Eu não ambicionei a grandeza. Quando jogava vôlei de quadra, ser campeã olímpica era uma coisa tão distante", lembra Jacqueline.

No fim de 1993, Jackie surpreendeu Sandra, de 21 anos, com um telefonema e o convite para jogarem juntas. “Eu era muito garota. Não a conhecia. Sabia que ela era um nome forte e que os melhores times eram dos Estados Unidos”, conta Sandra. A proposta era ambiciosa. “Desde o início, propus para ela ser campeã olímpica”, diz Jackie. O convite era partir para os Estados Unidos e aprender com os melhores. Sandra, que estava noiva à época, aceitou deixar o Rio. Vendeu seu Chevette e seguiu viagem. “Eu ficava babando. Vi toda a nata, olhava aquilo e era fantástico. Eu dormia e acordava pensando em vôlei”, lembra Sandra.

BAMBA- Jacqueline em ação exibindo o seu talento na areia.Ao lado, com a parceira de ouro, Sandra
Crédito: Arquivo O Dia


Quando chegou a hora de brigar pela vaga olímpica, Jackie fez as pazes com o então presidente da Confederação Brasileira de Vôlei, Carlos Arthur Nuzman, e teve que desistir de competir nos Estados Unidos: “Tinha que decidir várias coisas. Uma delas era voltar para o Brasil, eu não podia mais continuar jogando nos Estados Unidos. Tive que escrever uma carta.” Sua vida estava estabelecida lá fora, mas ela aceitou a exigência. “No fim das contas, eu quase que agradeço. Se não tivesse acontecido isso, não conseguiria ganhá-la”, admite, olhando a medalha dourada.



FESTA VISTA PELA TV, EM ATLANTA

O relacionamento entre Jackie e Sandra não era fácil. “A gente brigou muito. Eu já tinha visto aquilo de cor e salteado. Em Atlanta, a Sandra queria desfilar e eu falei: ‘Não vou, acho melhor você não ir porque isso cansa’. Ela ficou com o maior bico. Assistimos pela televisão”, conta Jackie.

O sacrifício valeu a pena e veio a tão sonhada medalha de ouro em 1996. Em Sydney-2000, quando atuou ao lado de Adriana Samuel, Sandra se tornou a primeira mulher a desfilar com a bandeira do Brasil numa cerimônia de abertura da Olimpíada. "Sydney foi incrível. Ganhei minha segunda medalha (o bronze) e ainda esse presente", recorda Sandra.

Em Atlanta, Mônica e Adriana subiram ao pódio com a prata. Elas haviam jogado juntas na quadra pela Rio Forte e se uniram na praia em 1992. Tudo começou como uma brincadeira na rede da Tia Leah, em Copacabana. “Chamava a Adriana para jogar. Insisti até que ela tomou gosto”, conta Mônica. Mas o sol e a areia incomodavam Adriana. “A Mônica tinha o hábito de praia. Para mim, era uma forma de bater bola para não ficar parada. Ia de vez em quando. Mas não chegava em casa e dizia: 'Amei'. A Mônica teve uma persistência de tirar o chapéu”, reconhece Adriana.

HARMONIA- Adriana e Mônica comemoram mais um ponto. Dupla afinada
Crédito: Arquivo O Dia


A modalidade começou a crescer, ter campeonatos, e a dupla ganhou projeção até garantir a vaga em Atlanta. “Jogar uma Olimpíada era um sonho. Tive oportunidade de estar em Seul (1988) e fui cortada. Fui o último corte”, lamenta Adriana, referindo-se à época em que atuou pela Seleção de quadra.



NA VOLTA PARA A CASA, O ORGULHO DAS BRASILEIRAS

Mas foi nas areias que Adriana — irmã do campeão olímpico Tande — viveu mesmo o auge da carreira. Na final olímpica, ela e Mônica ainda tentaram surpreender sacando em cima de Sandra. Mas Jackie e Sandra venceram por 2 sets a 0 (12/11 e 12/6). “Na hora você não gosta. Mas depois passa. Vivemos um momento muito bacana e demos o nosso melhor”, ressalta Mônica.

EM CASA- Na volta ao Brasil,o quarteto fantástico exibe as medalhas. Depois, sobe no caminhão do Corpo de Bombeiro para ser reverenciado.
Crédito: Arquivo O Dia


Para as quatro medalhistas, a dimensão do feito só foi sentida na chegada ao Rio, quando desfilaram em carro do Corpo de Bombeiros. "A gente não tinha noção de como estava o país. Não tinha Internet. Demorou a chegar a sensação, não é imediata como agora", conta Sandra. Foram momentos tão especiais que Adriana gostaria que ficassem eternizados. “Não vou esquecer nunca dos meus amigos seguindo o carro. Teve o desfile no Centro da cidade. Foi uma festa, todo mundo aparecendo na janela dos escritórios. Foi inesquecível. A gente percebia o orgulho das mulheres”, emociona-se Adriana, com a sensação de dever cumprido.

REUNIDAS Sandra, Jackie, Adriana e Mônica posam no Hotel Sofitel, em Copacabana
Crédito: MAIRA COELHO














  • Maria Lenk   -  
  • Piedade Coutinho   -  
  • Scylla Venâncio   -  
  • Helena de Moraes Salles   -  
  • Siegland Lenk   -  
  • Hilda von Puttkammer   -  
  • Benedita Souza Oliveira   -  
  • Elisabeth Clara Muller   -  
  • Helena Cardoso de Menezes   -  
  • Lucila Pini   -  
  • Melânia Luz   -  
  • Gertrudes Ida Morg   -  
  • Eleonora Margarida J. Schmitt   -  
  • Maria Angélica Leão da Costa   -  
  • Talita de Alencar Rodrigues   -  
  • Helena Cardoso de Menezes   -  
  • Deise Jurdelina de Castro   -  
  • Wanda dos Santos   -  
  • Edith Groba Oliveira   -  
  • Mary Dalva Proença   -  
  • Aída dos Santos   -  
  • Irenice Maria Rodrigues   -  
  • Maria da Conceição Cypriano   -  
  • Ingrid Borghoff   -  
  • Sylvia Jubran Simão Racy   -  
  • Lucy Maurity Burle   -  
  • Christina Bassani Teixeira   -  
  • Maria Isabel Vieira Guerra   -  
  • Esmeralda de Jesus Freitas   -  
  • Silvina das Graças Pereira   -  
  • Maria Luísa Domingues Betioli   -  
  • Maria Elisa Guimarães   -  
  • Flávia Nadalutti   -  
  • Rosemary Peres Ribeiro   -  
  • Conceição Aparecida Geremias   -  
  • Cláudia de Paula Magalhães Costa   -  
  • Arci Zélia Kempner   -  
  • Denise Porto Mattioli   -  
  • Ivonette das Neves   -  
  • Lenice Peluso de Oliveira   -  
  • Regina Vilela dos Santos   -  
  • Fernanda Emerick da Silva   -  
  • Paula Rodrigues de Mello   -  
  • Maria Isabel Barroso Salgado Alencar   -  
  • Eliana Maria Nagib Aleixo   -  
  • Maria Villar Castanheira   -  
  • Jacqueline Louise Cruz Silva   -  
  • Vera Helena Bonetti Mossa   -  
  • Rita de Cássia Teixeira   -  
  • Eleonora Mendonça   -  
  • Tatiana Figueiredo   -  
  • Rosana Favila   -  
  • Paula Gonçalves Carvalho   -  
  • Tessa Gonçalves Carvalho   -  
  • Ângela Mendonça Ribeiro   -  
  • Silvana Campos   -  
  • Débora Srour   -  
  • Mônica Caetano da Silva   -  
  • Heloísa Helena Roese   -  
  • Regina Pereira Uchôa   -  
  • Ana Maria Richa   -  
  • Sandra Maria Farrapeira Lima   -  
  • Eliani Miranda da Costa   -  
  • Luíza Pinheiro Machado   -  
  • Ana Margarida Vieira Álvares (Ida)   -  
  • Maria Magnólia Souza Figueiredo   -  
  • Soraya Vieira Telles   -  
  • Suzete Garcia de Montalvão   -  
  • Tânia Maria Miranda   -  
  • Angélica de Almeida   -  
  • Luisa Parente   -  
  • Christina Johannpeter   -  
  • Mônica Angelucci   -  
  • Soraia André   -  
  • Adriana Salazar Lopes Ferreira   -  
  • Mônica dos Anjos Costa Rezende   -  
  • Isabelle Marques Vieira   -  
  • Patrícia Filler Amorim   -  
  • Érika MacDavid   -  
  • Eva Menéndez Rivera   -  
  • Gisele Tourinho Miró   -  
  • Maria Nelly Padilha Amaral   -  
  • Tânia Maria Giansante Fassoni   -  
  • Cínthia Knoth   -  
  • Márcia Pellicano   -  
  • Kerly Cristiane P. dos Santos   -  
  • Ana Beatriz Moser   -  
  • Eliani Miranda da Costa   -  
  • Ana Maria Richa   -  
  • Maria Auxiliadora Villar Trade (Dôra)   -  
  • Ana Cláudia Silva Ramos   -  
  • Márcia Reginha Cunha (Márcia Fu)   -  
  • Ana Lúcia Camargo Barros   -  
  • Fernanda Porto Venturini   -  
  • Simone Storm   -  
  • Carmen de Oliveira Furtado   -  
  • Márcia Narloch   -  
  • Janeth Mayal   -  
  • Hortência de Fátima Marcari Oliva   -  
  • Helen Cristina dos Santos Luz   -  
  • Nádia Bento de Lima   -  
  • Vânia Hernandes de Souza   -  
  • Maria Paula Gonçalves da Silva   -  
  • Janeth dos Santos Arcain   -  
  • Adriana Aparecida dos Santos   -  
  • Marta de Souza Sobral   -  
  • Ruth Roberta de Souza   -  
  • Maria José Bertolotti (Zezé)   -  
  • Joycenara Batista (Joyce)   -  
  • Simone Pontello   -  
  • Cláudia Carceroni Carvalho   -  
  • Marta Cristina Schonhorst (Kitty)   -  
  • Andréa Berti Rodrigues   -  
  • Patrícia Dias Bevilacqua   -  
  • Jemina Augusto Alves   -  
  • Tânia Chie Ishii   -  
  • Rosicléia Cardoso Campos   -  
  • Edilene Aparecida Andrade   -  
  • Gláucia Tinoco Soutinho   -  
  • Cristina Silveira Lobo   -  
  • Fernanda Camargo Veirano   -  
  • Silvana de Fátima Neitzke   -  
  • Andréa Chahad Guedes Vieira   -  
  • Cláudia Chabalgoity   -  
  • Lyanne Miuyki Kosaka   -  
  • Mônica Doti   -  
  • Christina Mattoso Maia Forte   -  
  • Cláudia Swan   -  
  • Mônica Schell   -  
  • Hilma Aparecida Caldeira   -  
  • Ana Paula Rodrigues   -  
  • Cristina Pacheco Lopes (Tina)   -  
  • Leila Gomes Barros   -  
  • Cilene Falleiro Rocha   -  
  • Ana Flávia Chitaro Daniel   -  
  • Hélia Rogério de Souza (Fofão)   -  
  • Cleide Amaral   -  
  • Luciana de Paula Mendes   -  
  • Roseli Aparecida Machado   -  
  • Carmen de Oliveira Furtado   -  
  • Solange Cordeiro de Souza   -  
  • Elisângela Maria Adriano   -  
  • Maria Aparecida Barbosa de Souza   -  
  • Maria Angélica Gonçalves da Silva (Branca)   -  
  • Leila de Souza Sobral   -  
  • Roseli do Carmo Gustavo   -  
  • Sílvia Andréa dos Santos Luz (Silvinha)   -  
  • Alessandra Santos de Oliveira   -  
  • Cintia Silva dos Santos (Cíntia Tuiú)   -  
  • Cláudia Maria Pastor (Cláudia Pastor)   -  
  • Margarete Maria Pioresan (Meg)   -  
  • Elissandra Regina Cavalcante (Nenê)   -  
  • Suzy Bitencourt de Oliveira   -  
  • Roselane Camargo Motta (Fanta)   -  
  • Márcia Taffarel   -  
  • Elane dos Santos Rego   -  
  • Delma Gonçalves (Pretinha)   -  
  • Miraildes Maciel Mota (Formiga)   -  
  • Mariléia dos Santos (Michael Jackson)   -  
  • Sisleide Lima do Amor (Sissi)   -  
  • Roseli de Belo   -  
  • Diedja M. Roque Barreto (Didi)   -  
  • Marisa Pires Nogueira   -  
  • Tânia Maria Pereira Ribeiro (Tânia Maranhão)   -  
  • Sônia Maria Roque da Costa (Acre)   -  
  • Katia Cilene Teixeira da Silva   -  
  • Soraya Lida de Carvalho   -  
  • Danielle Zangrando   -  
  • Cristiane Rebizzi Parmigiano   -  
  • Edinanci Fernandes da Silva   -  
  • Gabrielle Elaine Franco Rose   -  
  • Miriam d'Agostini   -  
  • Vanessa Atra de Menga   -  
  • Virna Cristine Dantas Dias   -  
  • Ericléia Bodziak (Filó)   -  
  • Sandra Maria Lima Suruagy   -  
  • Adriana Ramos Samuel   -  
  • Mônica Rodrigues   -  
  • Sandra Tavares Pires