1 Ano da Chacina de Costa Barros

A chacina de Costa Barros, marcada pela execução brutal dos jovens Carlos , Cleiton , Roberto , Wesley e Wilton pelas mãos de PMs do 41º BPM (Irajá) dilacera, há um ano, famílias das vítimas e dos policiais que tiveram a carreira interrompida e aguardam o julgamento na prisão. Com base no processo e em depoimentos, O DIA reexamina o episódio de Costa Barros em três capítulos publicados neste dia 28/11.

Na primeira parte, a chacina é recontada sob o ponto de vista dos parentes dos cinco mortos, testemunhas e dos quatro policiais envolvidos no caso, acusados de homicídio, fraude processual e porte ilegal de arma. O capítulo dois mostra as minúcias do processo — cujos desdobramentos já libertaram e prenderam novamente os PMs — que ainda parece longe de terminar. Já o último, propõe aos leitores uma discussão sobre Segurança Pública com especialistas em Direitos Humanos e violência, para analisar as causas e consequências dos assassinatos no Morro da Lagartixa e pensar alternativas possíveis.

Wilkerson Luis de Oliveira, irmão de Wilton, testemunha-chave do crime, sofreu um AVC fatal em julho deste ano, pouco tempo depois de completar 16 anos. Wilkerson, que escapara de ter sido a primeira vítima dos disparos de pistolas e fuzis, sucumbiu a uma tristeza profunda pela perda do seu melhor amigo. No início do mesmo mês, Joselita de Souza, mãe de Betinho, faleceu em uma unidade de saúde em São João de Meriti, com um quadro grave de pneumonia e anemia. Consumida pelo ocorrido, ela não se alimentava bem desde abril e se recusava a sair de casa. Adriana Pires, mãe de Carlinhos, passou por um período de fortíssima depressão e, apenas recentemente, voltou a trabalhar e conseguiu juntar forças para cuidar da sua filha de 6 anos.

Especial Costa Barros: Parentes de odiaonline
fotos dos policiais envolvidos Policiais envolvidos

Jorge Roberto Lima, pai de Betinho, Marcia Ferreira, mãe de Wilton, Monica Aparecida Corrêa, mãe de Cleiton, Carlos Henrique Souza, pai de Carlinhos, Rosileia Castro e Júlio Cesar Arouca, pais de Wesley, tentam levar uma vida normal enquanto esperam pela decisão da Justiça. Monica, que tem mais quatro filhos, e o padrasto de Cleiton enfrentam sérias dificuldades financeiras desde que a casa em que viviam desabou e passaram a morar na Associação de Moradores da comunidade.

Nas raras ocasiões em que se permitem sorrir, as famílias lembram com alegria dos momentos em que os cinco amigos, inseparáveis, conviviam nas casas uns dos outros, se divertindo, fazendo planos de trabalho e pensando no futuro. Havia os churrascos no quintal de Jorge Roberto ou reuniões simples à mesa de Marcia. “Quando tinha churrasco, eles não tinham coragem nem de dar um pedaço de carne para mim. Ficava todo mundo lá em casa, fazendo aquela festa, viviam muito juntos. Pareciam todos irmãos”, ri Jorge Roberto. Marcia rememora os momentos de união com inabitual brilho no olhar. “Às vezes, eles ficavam lá em casa, faziam lanche e eu reclamava que não tinha comido nada. Na hora, o Júnior (Wilton) vinha rindo: ‘Vou passar um café e um pão pra você, mãe!’”. No dia a dia, os amigos conversavam entre si e com seus pais sobre dois objetivos em comum: seguir a carreira militar e dar uma vida melhor a seus pais.

Capítulo I: Morte e Fraude

Os sonhos dos cinco rapazes foram interrompidos por mais de 100 tiros de fuzis e pistolas disparados pelos PMs do 41º BPM. Os policiais estavam na Avenida José Arantes de Melo, um dos acessos ao Morro da Lagartixa, após recuperarem um caminhão de bebidas roubado e saqueado horas antes. Seus caminhos cruzaram com o dos sete jovens, que voltavam de uma ida à lanchonete, depois de comemorarem o primeiro salário de Betinho durante o dia no Parque Madureira.

O sargento Marcio Darcy Alves dos Santos, o cabo Fabio Pizza Oliveira da Silva e os soldados Antonio Carlos Gonçalves Filho e Thiago Resende Viana Barbosa são acusados de homicídio doloso (quando há intenção de matar), fraude processual e porte ilegal de arma. Inicialmente, o cabo Pizza fora denunciado pelo Ministério Público apenas por fraude processual, alegando não ter atirado. Naquela noite, 111 tiros foram disparados em direção dos rapazes, de idades entre 16 e 25 anos, dos quais 63 atingiram o Palio branco em que eles estavam e 39, seus corpos.

O número de mortos poderia ter sido maior. Por volta das 22h30 do dia 28 de novembro de 2015, Wilkerson e seu ex-cunhado, que estavam em uma moto, por pouco não foram os primeiros alvos. Wilkerson alegou em depoimento que os policiais dispararam contra ele e seu ex-cunhado assim que avistaram os jovens na via. A perícia constatou que o pneu traseiro da moto em que os dois estavam, um pouco à frente do Palio branco, foi perfurado por um caco de vidro, que estava na pista, resíduo do saque ao caminhão. Assustado, o rapaz percorreu alguns metros e, em uma esquina à direita da rua, virou-se para ver Wesley e Wilton, que estavam na parte da frente do carro, argumentando com os PMs após a abordagem truculenta. “Morador, morador”, ouviu seu irmão dizer segundos antes de ser fuzilado. Após os primeiros disparos, os atiradores miraram suas armas para o teto do veículo e apertaram o gatilho novamente.

O jovem deu partida novamente na moto para avisar à irmã o que ocorrera. “Aconteceu alguma coisa com o Júnior”, disse, referindo-se a Wilton. A jovem, de 22 anos, chegou ao local com Wilkerson e viu os corpos dentro do veículo. Ao tentar se aproximar, foi impedida pelos PMs, que a ameaçaram. Em depoimento, ela relatou que dois disparos para o alto feitos por ‘um policial branco e de olhos claros’ a levaram ao chão. Ela, então, correu com o irmão para uma igreja próxima em busca de ajuda.

Enquanto esperava pela volta de Wilkerson, seu ex-cunhado viu quando o sargento Darcy, usando uma luva branca, colocou uma arma nas mãos de Wesley. Em todos os momentos, o rapaz observou que os militares riam, indiferentes ao que acabara de acontecer. Wilkerson já havia voltado em casa novamente e acordou sua mãe, a segunda pessoa a chegar ao local do crime. Sem saber o que tinha acontecido, Marcia avistou o carro onde seu filho agonizava e correu para ajudá-lo. Escutou gritos entremeados com palavrões para que não se aproximasse. Seu trajeto foi interrompido pelo soldado Antonio, que apontou uma arma diretamente para o seu peito. “Vai embora daqui”, gritou o policial.

Desesperada, Marcia argumentou que precisava socorrer o Wilton. “É morador, deixa eu ajudar meu filho.” No mesmo momento, ela também viu o sargento Darcy abandonar uma luva branca no chão ao lado do carona e colocar uma pistola, que a Polícia Civil constatou ser uma réplica, próximo ao pneu do motorista. Em seguida, vários moradores chegaram ao local do crime e registraram o caso em vídeos e fotos.

Jorge Roberto, pai de Betinho, que cruzou com os soldados Antonio e Thiago momentos antes da chacina, fora chamado por uma vizinha, dizendo que ‘algo havia acontecido com os meninos’. Ao chegar, ele encontrou Marcia e, além do que foi visto, percebeu que a chave do veículo estava na mala, que permaneceu fechada. “Fiquei lá até a chegada da perícia e fui pra delegacia prestar depoimento depois de tudo”, contou. Jorge, padrasto de Cleiton, também foi avisado por vizinhos do crime na mesma noite. “Cheguei lá e vi o carro todo fuzilado. Os corpos estavam um em cima do outro, amontoados. Somente às 4h eles foram recolhidos”, lembrou. Carlos Henrique, pai de Carlinhos, e Rosileia e Julio Cesar, pais de Wesley, souberam do fato apenas na manhã seguinte.

A versão dos PMs começa às 21h do mesmo dia. O major Moises Pinheiro Sardemberg, lotado no Diretório-Geral de Pessoal (DGP), recebeu a informação em um grupo de WhatsApp de que um caminhão transportando cerveja fora roubado na Avenida Brasil, altura de Guadalupe. Ele, então, procurou o capitão Daniel Florentino de Moura, do 41º BPM, para comunicar o fato. Em depoimento, Sardemberg contou que ‘prestava assessoria para uma empresa que atendia o serviço de rotas para uma empresa de bebidas’. Moura corroborou a explicação e acrescentou que acionou o sargento Darcy para recuperar o veículo, da empresa Logbev, com sede em Nova Iguaçu.

Segundo o promotor Paulo Roberto Mello, da Auditoria Militar, foi instaurado um Inquérito Policial Militar para investigar a conduta do major Sardemberg. Conforme o Código Penal Militar, um oficial da PM não pode “tomar parte na administração ou gerência de sociedade comercial, ou dela ser sócio ou participar, exceto como acionista ou cotista em sociedade anônima, ou por cotas de responsabilidade limitada”. Como o DIA revelou, em reportagem de setembro de 2016, Sardemberg seria gerente de uma empresa de segurança. O caso seguiu para a Corregedoria Militar e é acompanhado pela auditoria. Caso seja condenado, o major pode ser suspenso do cargo por seis meses a dois anos ou ser reformado.

Naquele dia, o motorista da empresa fora abordado na via expressa por um Palio azul, com quatro suspeitos armados com fuzis, um táxi Meriva e uma moto com dois ocupantes — estes dois últimos veículos serviam, segundo o condutor em seu relato na delegacia, como ‘escolta para a ação’. Quando entrou com o caminhão na Estrada João Paulo, o sistema de segurança foi acionado e o veículo parou na José Arantes. Uma van, semelhante às usadas em transporte alternativo, chegou ao local com mais três homens, que ordenaram ao motorista que deixasse a favela. O homem só voltaria à Lagartixa cerca de uma hora depois, para recuperar o caminhão de cerveja já sem qualquer vestígio da carga, com a lona e pallets avariados e o painel destruído.

Na 39ª DP (Pavuna), o capitão Moura explicou que o sargento Darcy o acionara às 22h10 para comunicar que havia recuperado o caminhão após uma troca de tiros com suspeitos assim que a guarnição chegou à região. Às 23h30, Moura foi novamente contatado por Darcy, pedindo reforços e afirmando que sua equipe tinha sido atacada por criminosos do local e da Favela Terra Nostra, vizinha da Lagartixa. Mais quatro viaturas chegaram para ‘garantir a segurança no trecho’. O cenário descrito pelos PMs exibe uma situação de guerra, com ataques de bandidos por vários lados, inclusive dos ocupantes da moto e do carro dos jovens, além de testemunhas que teriam mexido nos corpos e recolhido as cápsulas. Em depoimento, eles explicaram que pegaram a réplica, atribuída a Wesley, “por não saberem que a arma precisava permanecer na cena do crime”.

A perícia verificou que a quantidade de projéteis encontrados no local não correspondia ao que foi registrado pelos policiais em suas fichas de consumo de munição. Uma certidão escrita à mão pelo chefe da Reserva Única de Material Bélico do Batalhão (RUMB), narra que dois oficiais, um responsável pelas operações e outro supervisor, que estavam de serviço no dia da chacina, se recusaram a assinar as planilhas por discordarem da quantidade consumida pelos quatro PMs. Assinado pelo sargento Marcio Darcy, o documento mostra apenas os números divulgados pelos policiais, onde não consta qualquer disparo feito pelo cabo Pizza, embora os peritos tenham concluído que cinco projéteis foram deflagrados na pistola do cabo.

O depoimento dos quatro conta a suposta primeira troca de tiros com suspeitos de saquear a carga do caminhão e outro confronto com bandidos da Lagartixa e da Favela Terra Nostra, logo após serem avisados por um motorista de ônibus de que dois homens em uma moto, portando um fuzil, roubaram o coletivo nas proximidades. Darcy chegou a declarar que sintonizou uma frequência de rádio dos bandidos na região, onde três grupos combinaram de atacá-los. O sargento enfatizou ainda que seus homens foram cercados por bandidos em uma esquina e numa passarela. O cenário cinematográfico narrado também revela que eles tiveram que se abrigar em um ‘muro’ e ‘perceberam quando disparos atingiram o Palio’.

Após o fim dos testemunhos, o delegado Rômulo Assis pediu a prisão em flagrante dos militares por entender que houve homicídio qualificado e fraude processual. O tenente-coronel Marcos Netto, comandante do 41º BPM à época, foi exonerado no dia 30 de novembro de 2015. Em seguida, o MP acrescentou ao processo outra infração por porte ilegal de arma.

As famílias enterraram seus filhos dois dias depois da chacina. Monica, mãe de Cleiton, quase não o sepultou naquele dia. O corpo do jovem demorou a ser liberado do Instituto Médico-Legal (IML) e só chegou ao cemitério à noite, por volta das 21h. O enterro foi possível com o auxílio de equipes de televisão, que iluminaram o cortejo e a sepultura. A agonia dos parentes, no entanto, ainda estava longe de terminar.

Capítulo I I: Processo e reviravoltas

Os policiais estão na Unidade Prisional da corporação, em Niterói, onde aguardam o parecer do juiz Daniel Werneck Cotta, da 2ª Vara Criminal do Rio, que decidirá se os quatro vão ou não a júri popular. O promotor Fabio Vieira dos Santos, da 2ª Promotoria do Ministério Público, diz não ter dúvidas da responsabilidade dos militares na execução dos jovens.

Os familiares denunciaram que, durante as audiências de instrução e julgamento, era corriqueiro que os PMs demonstrassem frieza e deboche. “A gente viu eles rindo muito, como se estivessem em uma festa. Não tiveram respeito nenhum”, diz Marcia. “Eles estavam encostados, olhando para cima, como se as vítimas fossem eles. Eles chegaram ao tribunal com o braço pra fora do carro, sem algemas, sem nada, numa boa", relembrou, Julio Cesar, pai de Wesley.

Em abril deste ano, a defesa do cabo Fabio Pizza pediu habeas corpus ao Supremo Tribunal de Justiça (STJ). A defesa de Pizza sustentou o mesmo argumento repetido por seus colegas de que ele não efetuou um único disparo no dia da chacina. O ministro Nefi Cordeiro, da 6ª Turma, deu parecer favorável no dia 14 de junho, com extensão do benefício aos outros três PMs. No dia seguinte à decisão, o juiz Cotta requisitou a soltura dos réus. Eles deixaram a cadeia dois dias depois.

O advogado de Pizza contestou o laudo do exame de balística, que comparou os disparos relatados pelos PMs com os projéteis encontrados no carro, no corpo das vítimas e no local. O sargento Darcy diz ter consumido 22 munições no dia do crime, devolvendo 38 delas, além de 11 munições intactas calibre 40. Na época, ele ainda argumentou que "por falta de tempo hábil permaneceu com um carregador com mais 11 munições calibre 40 em seu cinto de guarnição”, que seria “entregue posteriormente por seu advogado".

O soldado Thiago relata ter usado todas as 22 munições recebidas para a sua pistola ponto 40. A justificativa para entregar dois carregadores vazios é que todas as balas foram usadas em "dois confrontos da guarnição." Do fuzil, ele alega ter usado somente uma das 40 munições recebidas. No relatório, entregou em um saco 19 munições intactas e um carregador com 20 munições.

Já o soldado Antonio alega que disparou 11 vezes com a pistola e que recebeu 22 munições. Dentro da delegacia, informa ter devolvido um carregador de pistola com 11 munições intactas. Do fuzil FAL 7.62, ele diz ter usado 18 munições das 60 recebidas, devolvendo 42 intactas em um saco. Fala também que as munições foram usadas em "dois confrontos da guarnição." Na viatura dos policiais não havia câmeras, como constatou a Polícia Civil. Dois disparos foram feitos na lateral esquerda do modelo S-10, um na porta dianteira e outra na traseira. Os projéteis, no entanto, foram recolhidos.

Segundo a denúncia da acusação, "os crimes foram praticados por motivo torpe, visto que os denunciados atiraram contra as vítimas por acreditarem que estas tinham envolvimento com o crime (...) com armas de grosso calibre efetuando dezenas de disparos (...) em via pública, com dezenas movimento de pessoas" e que "os acusados, fazendo uso de luva, alteraram a cena do crime, inserindo simulacro de arma de fogo próximo à roda dianteira do veículo em que estavam as vítimas …" . "(...) Os denunciados, em comunhão de ações e desígnios, possuíam e transportavam arma de fogo da espécie revólver (...), com numeração adulterada (...)." A defesa nega os fatos, falando não haver provas e que "tudo não passa de mero achismo, mera suposição".

O DIA fez contato com os advogados dos PMs, que não quiseram gravar entrevista em vídeo. O advogado do sargento Marcio, Ubiratan Tibúrcio, fez críticas à decisão judicial. Para Tibúrcio, os policiais cumpriam o seu dever naquele momento. "Essa ação penal é o maior absurdo jurídico. Eles (policiais) foram acionados e cumpriram uma determinação legal. Após recuperarem a carga, tiveram notícia do ônibus assaltado e da descrição dos suspeitos, que batiam com as que eles descreveram. Logo depois vieram os tiros da passarela e eles reagiram. Eles agiram no estrito cumprimento legal, não tinha outra coisa a fazer. O PM só tem algum valor quando morre. O tratamento que é dado aos policiais é surreal e quando você tem uma marginalidade forte, você tem uma segurança fraca. Acho que a sociedade deveria pensar nisso”, disse.

Tibúrcio contou ainda que pediu um novo habeas corpus no STJ, protocolado há 30 dias. O defensor do cabo Pizza não quis dar entrevista. Os advogados dos soldados não foram encontrados.

A soltura dos policiais provocou descrença geral dos familiares no processo. “Eu fiquei paralisado com essa soltura. A gente não queria acreditar”, pontua Carlos Henrique, pai de Carlinhos. O STJ havia concedido o habeas corpus sob o argumento de que o texto que pedia a conversão da prisão em flagrante para preventiva estava genérico. No entanto, a decisão havia deixado em aberto a possibilidade de ser decretada uma nova prisão, pedida pelo Ministério Público.

O juiz Daniel Cotta, da 2ª Vara Criminal, acolheu a solicitação do MP. Na decisão, o magistrado considerou que os depoimentos e as provas materiais apresentadas no inquérito ‘atendem ao andamento da ação’, além de destacar o ‘teor dos depoimentos prestados no inquérito’.

A Defensoria Pública, que presta assistência jurídica às famílias, foi enfática: "Forjaram a presença de armas de fogo; colocaram uma que sequer era capaz de efetuar disparos", explicou o defensor Daniel Lozoya. O órgão informou que algumas famílias já fizeram acordo com o Estado e receberam indenização por danos morais e materiais. Outras delas, por pendências documentais, ainda finalizarão a ação, e uma delas não quis fazer acordo. Neste caso, a Defensoria ajuizou processo indenizatório contra o Estado. Na réplica da arma, a perícia não pôde ser realizada porque o objeto não apresentava condições para o recolhimento de impressões digitais, por estar coberto por substância semelhante a uma cola.

“Quando prenderam novamente os policiais, comemorei como se fosse um gol. É o mínimo que podiam fazer. Quanto ao governo, demoraram demais para nos atender. Disseram que iam arcar com os custos do enterro, e nada foi feito. Fomos atendidos apenas uma vez pelo governador”, lamentou Jorge Roberto, pai de Betinho. Júlio Cesar comentou sobre a morosidade do Estado. “O Pezão nos chamou no Palácio Guanabara, mas ninguém arcou com nada até hoje”, acrescenta.

A defesa das famílias das vítimas pede, além de indenização, uma reparação não econômica, que consiste em um pedido de desculpas e homenagem às vítimas por parte do Estado. Os parentes também solicitaram um curso de reciclagem para os PMs do 41º BPM, que fazem parte de uma estatística assustadora: a unidade, com seis anos de existência, tem a polícia que mais mata no Rio.

Capítulo I I I: Após Costa Barros

O 41º BPM (Irajá), onde estão lotados os quatro policiais acusados da chacina de Costa Barros, é o mais letal do estado, segundo dados da Anistia Internacional. Os números chamam a atenção.

Em 2014, quatro dos 10 homicídios em registrado como auto de resistência (quando o policial alega ter matado para se defender) foram cometidos por homens do 41º batalhão. O número é igual aos do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e maior do que os do Batalhão de Choque. No mesmo ano, foram 48 mortes na área da unidade de Irajá e um policial militar morto em serviço.

Ainda em 2014, 32 dos 43 registros de ‘homicídio decorrente de intervenção policial’ feitos na 39ª DP (Pavuna) foram atribuídos ao batalhão de Irajá. Isso tornou a unidade responsável pela maioria das mortes em operações. Para piorar, o número sobe de 32 para 68 se forem incluídos os registros da 27ªDP (Vicente de Carvalho) e da 31ª DP (Ricardo de Albuquerque), delegacias que também atendem as áreas cobertas pelo batalhão.

Segundo a assessora de Direitos Humanos da Anistia Internacional, casos como o de Costa Barros são distorcidos da realidade. “Em casos como esse, em que a polícia alega legítima defesa, vimos que a tendência é que sejam execuções extrajudiciais”, diz Renata Neder.

Na opinião do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, Marcelo Freixo, o falso registro de auto de resistência é um exemplo do Estado agindo fora da lei. “A lei possibilita que a polícia em confronto possa vir a matar alguém. Por isso existem os autos de resistência. O que não pode é se aproveitar do auto de resistência para executar e torturar. Isso não pode acontecer. Justiça não é vingança", avalia.

Não bastassem os registros imprecisos, a dificuldade em coletar os dados das ações da polícia contribui para a falta de transparência, oportuna aliada da impunidade. “Não há como saber quantas operações aconteceram e quantas vezes a polícia atirou”, diz a socióloga Julita Lemgruber, responsável pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), da Universidade Cândido Mendes.

Polícia trabalha em condições precárias

Rotina estressante, formação deficiente, salários discrepantes entre oficiais e praças, exposição a confrontos armados, baixo status social. Não são poucas as adversidades enfrentadas pelos policiais. Os especialistas do terceiro setor reconhecem que esses fatores contribuem para a eclosão de tragédias como a de Costa Barros.

Uma pesquisa entre as Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, e a Uerj, cruzou dados de 2014 que evidenciam o quão precárias são as condições de trabalho dos policiais.
"O policial no Rio é estressado, trabalha longas horas, não dorme o suficiente, tem angústia, ansiedade, e tudo isso pode levá-lo ao uso excessivo da força. É preciso melhorar as condições de trabalho do policial para que ele faça o uso moderado da força. O levantamento mostrou ainda que 7% dos policiais militares do Rio já pensaram em suicídio", disse Ignácio Cano ao DIA em 2015. Pode ajudar a entender a ação nefasta em Costa Barros, mas não a justificá-la. “A polícia jamais pode fuzilar um carro. A força deve ser usada apenas quando a vida está em perigo”, avalia Cano.

De todos os amargos ingredientes dessa receita de violência e brutalidade, um merece especial atenção tanto de homens da lei quanto do cidadão: o pré-julgamento moral das vítimas. Dos mortos, Cleiton e Wesley tinham, respectivamente, passagem pela polícia por furto e tráfico de drogas. Na Internet, eles foram chamados de bandidos e associados a algum tipo de crime. “Esses cinco meninos se encaixam exatamente no perfil padrão da vítima da polícia no Rio: jovens, negros, pobres, do sexo masculino e favelados”, afirma Renata, representante da Anistia Internacional.

Ignácio Cano critica o argumento de que bandido bom é bandido morto. “As pessoas deveriam parar de apoiar esse tipo de ação, porque um dia poderia acontecer com elas, com seus filhos que estivessem voltando de uma festa”, diz.

Para o deputado Marcelo Freixo, a sociedade, de forma geral, nega os direitos humanos. “A polícia mata e morre muito. Não houve momento histórico no Rio em que tantos policiais morreram como agora. Mas isso jamais pode legitimar uma polícia que mate muito. A luta por direitos humanos é de uma sociedade mais justa, que respeite a lei”, diz.

Alternativas para a segurança pública

Entre as medidas propostas pelos especialistas está a desmilitarização da Polícia Militar que institui que todo policial tenha uma formação civil une as duas corporações em um único. Outra linha discute a política e aplicação prática da estratégia da polícia em operações nas comunidades. Para eles, a guerra às drogas não aponta um caminho eficaz. O desafio não é atirar, mas evitar que tiros sejam desferidos. De ambos os lados.

“O que queremos é uma polícia bem preparada, que o policial tenha a chance de evoluir na carreira. Hoje, o PM entra soldado e chega, no máximo, a sargento. A lógica da guerra faz a polícia matar muito, morrer muito. É preciso pensar o modelo de segurança pública no Rio", acredita Freixo.

A Anistia Internacional propôs algumas alternativas ao poder público. “Uma das sugestões seria o aumento de recursos para a Delegacia de Homicídios e investigação progressiva por áreas da cidade, já que a DH não tem capacidade de investigar todos os casos de uma vez só”, diz a representante da entidade.

Em 2015, o chefe do Estado-Maior à época, coronel Robson Rodrigues, classificou o caso como uma ‘tragédia’ e criticou o militarismo como estrutura de gestão. “Não tenho palavras para definir essa angústia que é tentar encontrar meios para reverter esse quadro que, infelizmente, se repete. Não estamos sendo eficientes. Atualmente, há sanções severas para o policial desviante, que vão desde uma punição disciplinar até a demissão e a condenação penal. Mas, por vários fatores os mecanismos de controle social acabam não funcionando no indivíduo que opta pelo desvio. A corporação se esforça, mas é certo que precisamos melhorar nossa gestão para aprimorar sempre os mecanismos de controle, tanto internos quanto externo, formais e informais, o que não se exaure na polícia, mas depende de sua credibilidade. É preciso entender que a militarização ideológica não está somente na polícia, mas permeia vários setores da sociedade. Se estivermos falando do militarismo como uma estrutura de gestão, ele é ineficiente para o trabalho de polícia que é essencialmente de natureza civil”.

A Polícia Militar foi procurada pelo DIA Online desde o dia 28 de setembro mas, até a publicação desta reportagem, não se pronunciou. Foram feitos vários pedidos de entrevista com o coronel Wolney Dias, comandante-geral da corporação, para comentar os eventos em Costa Barros e as políticas de Segurança Pública. A corporação postergou repetidamente os pedidos e não emitiu nota sobre o caso.