Candeia 80 Anos

"Sentando em trono de rei ou aqui nesta cadeira
Eu já disse, já falei que eu canto de qualquer maneira
Quem é bamba não bambeia digo com convicção
Enquanto houver sangue nas veias empunharei meu violão"
(De Qualquer Maneira - Candeia)

Reportagem: Leandro Resende
Fotos: Acervo, Paulo Araújo, Carlos Moraes e Carlo Wrede
Desenvolvimento: Marleisson Silva
Supervisão: Thiago Antunes

Candeia 80 Anos

“A chama não se apagou / Nem se apagará / És luz de eterno fulgor, Candeia”

Os versos do poeta Luiz Carlos da Vila norteiam esta reportagem especial sobre os oitenta anos de nascimento que Antônio Candeia Filho completaria no mês que vem, se vivo estivesse. A chama se foi, mas a luz da inspiração ficou: O DIA conversou com parceiros, amigos e apaixonados pela obra do portelense, que revelaram histórias e sambas inéditos do poeta.

Foram 43 anos, que começam em Oswaldo Cruz e terminam em Jacarepaguá, suficientes para uma passagem marcante e uma obra tão vasta quanto seu legado. E, por isso mesmo, impossível de ser resumida: Candeia transcende páginas e relatos, pois sempre haverá mais um samba inédito, outra anedota para ser contada. Luta pelo povo negro, resistência às mudanças no Carnaval, vontade de derrubar preconceitos e de cantar o amor, tudo em alta intensidade na vida do homem que foi policial civil, ficou paraplégico e fundou o Quilombo - uma escola de samba para salvaguardar a arte negra.

O parceiro Casquinha, hoje com 93 anos, se recorda dos tempos de bar do Nozinho, em Oswaldo Cruz, onde ele e Candeia partilharam tardes, madrugadas, batidas de limão e assinaram sambas. Exemplo de que, para cada um que tem sua trajetória entrelaçada ao do poeta, há um lugar na cidade do Rio que reaviva lembranças: o Campo de São Cristóvão, dos passeios com a família, a esquina da Marquês de Sapucaí com a Avenida Presidente Vargas, local da tragédia que lhe tirou a possibilidade de andar, e a casa na Rua Mapendi, na Taquara. Por ali, passaram Noca da Portela, Paulinho da Viola, Aldecy Reis...e Monarco, Walter Rosa, Wilson Moreira, Dona Ivone Lara, Clara Nunes, parceiros e discípulos de um mestre que nunca precisou ser da Academia pois, natural com sua poesia, viu o povo lhe fazer imortal.

A agenda das homenagens ao nascimento de Candeia, cujo aniversário será celebrado dia 17, será intensa e pra lá de emocionante. A quadra da Portela organiza feijoada para o dia primeiro de agosto e o Circo Voador terá em seu palco, no dia seis, uma festa para entrar para história: Martinho da Vila, Monarco, Cristina Buarque, Paulinho da Viola e Teresa Cristina sobem ao palco para cantar a obra do poeta. A seguir, O DIA conta histórias deste filho de Oxóssi em passagem avassaladora pela Terra, mestre do partido-alto e responsável por cantar que 'o samba é verdade do povo'. É o 'poeta nas asas da imaginação'. Cantemos de novo.

Noca da Portela

"Manchaste o meu nome e tudo quanto te ofertei
Jogaste fora, como moeda sem valor, um grande amor
Quem me encontrou, me valorizou"
(Mil Réis - Candeia e Noca da Portela)

Noca da Portela

A única casa azul no entorno do Estádio Olímpico Nilton Santos, no Engenho de Dentro, pertence a Noca da Portela, compositor que além da vocação para fazer sambas, gosta de contar histórias. Nas paredes, diplomas de homenagens de escolas de samba como a Mangueira, o Salgueiro e o Quilombo de Candeia, universidades, câmaras de vereadores e do Fluminense, seu time do coração. “Chamam a gente, homenageiam e não deixam a gente falar. Quem sabe se a gente contasse da nossa vida para essa garotada que está aí, falasse do que a música proporciona e eles tivessem eu, Monarco e os outros velhos como exemplo, o problema da violência na juventude não seria amenizado? Pensa em quantos eram analfabetos e faziam aqueles sambas históricos! Nós somos heróis”, opina o mestre.

Aos 82 anos, Osvaldo Alves Pereira nunca passou perto de nenhuma novela na TV mas, com orgulho, diz que é “oficialmente Comendador”: escondida sob a TV da sala de estar está uma pasta com um documento, assinado e entregue a ele pelo ex-presidente Lula em 2007, que o tornou detentor da Comenda do Barão do Rio Branco, honraria que o distingue mas não o faz perder a humildade. “Fica escondida para não rolar inveja”, brinca.

FOTO: Noca da Portela

A humildade, marca do menino que saiu jovem da cidade mineira de Leopoldina, foi reaprendida na Portela. Quando chegou na antiga sede da escola que ele adotaria no nome, Noca já compunha desde os 15 anos na Unidos do Catete. Ao entrar na quadra em meados da década de 1960, foi recepcionado por Candeia, um dos diretores da ala de compositores. “Ele foi brabo comigo. Chegou e disse, na lata, que eu era bem recomendado, mas que ali se tratava de uma academia de compositores chamada Portela e ninguém poderia cair ali de paraquedas. Me deu 'dez merréis', mandou eu ir almoçar e voltar com um samba inédito para ele no mesmo dia”, relembra.

“Crente que estava abafando", Noca pegou o dinheiro e encontrou os parceiros Picolino e Colombo, outros que se tornariam bambas da Azul e Branco e avisou que Candeia queria um samba novo até seis horas da tarde. “Eles me tranquilizaram. Não ia chegar e mandar um boi com abóbora qualquer...então, resolvi terminar um samba que tinha feito pensando na Mangueira. Mudei uma coisinha, terminei, cantei pra ele, que ficou todo feliz. Daí, mandei direto um que já tinha pensado na sequência. O Candeia ficou com os olhos arregalados e me deu um esporro, porque fiz dois sambas”, conta, às gargalhadas.

A parceria entre os dois viria somente em 1974 com a bela 'Mil Réis', cuja história Noca conta no vídeo a seguir. Admirador da obra de Candeia, o portelense afirma que a tragédia que deixou o amigo sobre uma cadeira de rodas mudou sua forma de compor. “Ele sempre foi um cara muito inteligente e já era um dos maiores compositores antes do acidente. Aí, se tornou um cara muito emotivo, as letras mudaram. E começaram a aparecer pessoas para divulgar aquela genialidade toda, como a Clara Nunes, a Beth Carvalho e o Martinho da Vila. Depois do acidente, ele se inspirou mais, demonstrou um sofrimento enrustido. Ele, que era cana, ativo pra caramba, forte, quando se vê preso naquela cadeira...é aí que a caneta se ativou violentamente e ele virou poeta. Fiz música com Nelson Cavaquinho, Martinho, Ivone Lara, Jackson do Pandeiro...mas o Candeia, para além da parceria, foi um professor de todos nós no procedimento. Fazer o que ele fez pelo samba é algo simplesmente impossível”.

Selma Candeia

"Sinto-me em delírio
Luz da inspiração
Acordes musicais
Invadiram o meu ser, sem querer
Me elevam ao infinito da paz"
(Luz da Inspiração - Candeia)

Selma Candeia

Selma Candeia, 55 anos, nunca desfilou pela Portela enquanto o pai esteve vivo. Rígido, Candeia cobrava da filha e de seu irmão, Jairo, o máximo de empenho nas atividades escolares e prometia, se as notas fossem boas, que lhes seria dada a chance de participar do Carnaval. “Quando ele falava isso, eu ficava toda animada, me esforçava para melhorar a nota...mas aí chegava na época e ele lembrava de alguma coisa que eu tinha feito e não deixava eu ir”, diz.

A frustração da menina dá lugar, hoje, a certeza de que o zelo de Candeia pelas tradições, pelo povo negro e pelo samba têm relação objetiva com o cuidado dele com a família. “Da mesma forma que meu pai teve muitos amigos, também teve muitos desafetos. Ele foi para cadeira de rodas quando eu tinha três anos, então, possivelmente, ele avaliava que fazer algo contra mim seria a única forma dos desafetos atingirem ele”, afirma Selma, que “nunca teve uma festa de criança com bolinho, bolinha e chapeuzinho”. “Nunca foi uma festa de criança normal. Era sempre feijoada, samba, batida de limão, chá de macaco, macarronada...as crianças não bebiam, né, mas estava sempre todo mundo lá em casa”.

FOTO: Selma Candeia

Ela conta que os sambistas não tinham hora para chegar: muitas vezes após os ensaios da Portela, Casquinha e Waldir 59 chegavam em sua casa com pão, mortadela e preparavam o café da manhã. O batuque começava no portão da casa da Rua Mapendi, e ia rolando até Candeia acordar, se aprontar e aparecer para começar os improvisos. Nos versos do partido-alto, os parceiros se juntavam a malandros do porte de Manacéa, Chico Santana e Aniceto para contar para Candeia o que tinha acontecido na noite anterior e quais as novidades da Portela.

Observadora atenta do olhar e dos gestos do pai, Selma afirma que Candeia tinha especial predileção por Clara Nunes e tratava Clementina de Jesus como fonte de inspiração. “Ele adorava Elizeth Cardoso e Elis Regina, mas para cantar as músicas dele era a Clara, que conseguia dar voz ao que ele sentia. Além disso, ele tinha adoração pela Clementina de Jesus. Não foram poucas as vezes em que vi meu pai embevecido olhando para ela, negra como ele, uma mulher forte e decidida”, conta.

Selma tinha dezesseis anos em 16 de novembro de 1978, quando o poeta partiu. Quando criança, uma de suas tarefas era anotar os versos que surgiam na cabeça do pai. Hoje, emociona-se ao lembrar do passado e tem orgulho da missão de falar sobre quem foi Candeia, seus dramas, sambas, desejos e sonhos.

Waldir 59

"Vem dar lenitivo ao meu pobre coração
Que tanto sofre a esperar por teu amor
Vem suavizar esta paixão
E exterminar toda esta dor
Ora, vem por favor"
(Vem Amenizar - Candeia e Waldir 59)

Waldir 59

“Olha só, preciso deixar claro o seguinte, sou contra esse negócio de dizer que a Portela é de Madureira. Portela é de Oswaldo Cruz, eu valorizo muito o lugar onde eu nasci!” A voz de Waldir 59 corta o ar da quadra da Portelinha, antiga sede da Azul e Branco, onde ele conversou com o DIA. Os 88 anos e a cegueira não diminuíram a firmeza do passo que, embora mais lento, carrega a história do homem que ganhou cinco sambas-enredo na Portela, ao lado de Candeia, e dedicou toda a vida à escola — sendo hoje o mais antigo membro da agremiação. Casquinha é mais velho, mas chegou depois à Oswaldo Cruz.

“Eu digo isso porque conheci Candeia em Oswaldo Cruz! Não foi em Madureira. Era um lugar de gente humilde, lá...a gente tinha um bloquinho ali na estação, que era do 'lado de lá'. E aí que vem o 'vai pro lado de lá.', relembra Waldir, entre versos e muitos sorrisos. Com Candeia, Waldir assinou Festa Junina em Fevereiro, em 1955, e Riquezas do Brasil, em 1956, até vencer em 1957, com Legados de D.João VI, sobre a história do rei português que veio para o Brasil em 1808. “Os enredos, naquele tempo, eram todos históricos, tinha que falar de História e estudar para escrever”, explica.

FOTO: Waldir 59

Waldir relembra que se aposentou após trabalhar por anos como operário da Central do Brasil e isto causava uma diferença entre ele e Candeia, apesar de ambos serem da famosa “Ala dos Impossíveis” da Portela. “Quando o Candeia virou polícia, ele me esqueceu um pouco. Ficou famoso”, afirma ele. Enérgico, Candeia entrou para Polícia Civil no começo dos anos 1960 e se tornou célebre após prender o famoso bandido Neném Ruço, no Engenho da Rainha. Dominguinhos do Estácio e até Paulinho da Viola — reza a lenda — tomaram dura do policial Candeia.

No ano do quarto centenário do Rio de Janeiro, 1965, aos treze dias de dezembro, Waldir 59 estava com Candeia durante a briga que lhe tirou o movimento das pernas. O poeta tinha tomado goles a mais para celebrar o fato de estar saindo da Polícia: iria se tornar oficial de justiça. Na saída de uma festa na Zona Sul, retornando para Madureira, Candeia bateu em um caminhão de peixe, desceu do veículo e deu quatro tiros nos pneus. Um homem desceu da boleia e disparou contra o sambista.

De lá, Waldir levou Candeia para o hospital, de onde ele saiu sem jamais voltar a andar. “Ele era meu amigo, irmão. Depois, a morte dele mexeu muito comigo. É como a música do Alcides Histórico... 'me senti isolado no mundo...'”, canta.

Casquinha

"Brasil, pantheon de glórias
Salve os heróis da nossa história
Há muitos anos atrás
Felipe Camarão e outros vultos mais
Expulsaram os invasores
Do território nacional"
(Brasil, Pantheon de Glórias - Candeia, Waldir 59, Casquinha, Bubu e Picolino. Samba campeão do Carnaval de 1959 )

Casquinha

Em dezembro de 1922, o mundo ganhou Otto Enrique Trepte que — para sorte do samba — se tornaria conhecido como Casquinha da Portela anos mais tarde e um dos parceiros queridos de Candeia. Num sábado de julho ele recebeu, de surpresa, a visita de fãs de sua obra e que militam pelo resgate e pela conservação de suas histórias. Quando da chegada de integrantes do Samba da Pedreira e do Samba da Vila, de São Paulo para uma homenagem organizada por Rodrigo Nonno, Casquinha disse: “Olha, rapaz, não sou de falar não...não me lembro. Já não consigo mais andar”, lamentou. Ao som dos primeiros acordes porém, as histórias, os sambas, vieram em sequência e saíram cantados baixinho, pois a voz já não é a mesma de outrora. Tampouco o samba.

“Olha, eu não gosto de falar...mas o samba ficou meio fraco, sabe? Não é na Portela só não...no Império Serrano, Mangueira, Salgueiro, era só samba que dava prazer da gente ver e ouvir. Tinha o Candeia no corpo de compositores, sabe? Pra ganhar um samba no meu tempo era muito difícil”, compara o mestre. Símbolo do respeito que se dava aos mais velhos no seu tempo e no de Candeia, Casquinha relembra que, quando da criação da Velha Guarda da Portela, em 1970, a ele eram legados apenas os instrumentos como o surdo e o tamborim. Cantar, sem chance.

“Falavam 'Casquinha, canta alguma coisa ai!', e logo diziam que eu era muito novo. Não deixavam eu cantar, diziam que eu tinha a vida inteira pela frente para cantar. Me jogaram no surdo, onde eu gostava para caramba e agora todos eles já morreram e eu ainda to vivo!”, diverte-se o compositor. Sobre Candeia, Casquinha recorda-se que era um compositor mais jovem, mas muito respeitado. Em um domingo, no tradicional botequim do Nozinho, em Oswaldo Cruz, eles sentaram e Candeia veio com o que seria a primeira parte do samba Brasil, Pantheon de Glorias, que venceu o Carnaval de 1959 pela Portela.

“Ele veio e falou que fez uma primeira parte. Sentamos lá e eu vi que tava tudo feito. Faltava uma coisinha só...e eu coloquei o 'lalalaiá' do começo. Mas aí fui mostrar para ele e dei a ideia de algumas coisas, respeitando muito porque eu gostava dele pra caramba. Fiz uma alteração, uma sugestão aqui e ali e levamos pra quadra. Todos adoraram. Na hora de registrar eu, que gostava de tomar umas canas, registrei o samba, que era Candeia e Casquinha, com o nome de uma porção de camaradas nossos. Quando ele viu ficou uma fera”, revela, aos risos. Juntos, Casquinha e Candeia fizeram sambas, contaram histórias e transformaram para sempre a Portela, por quem, como escreveram juntos certa vez, eles decidiram 'dar a vida'.

Isnard Araújo

Eu sou o povo… basta de complicações.
Extraio o belo das coisas simples que me seduzem.
Quero sair pelas ruas do subúrbio com minhas baianas
rendadas sambando sem parar…
Com minha comissão de frente digna de respeito…
Intimamente ligados as minhas origens
Não me incomodem, por favor,
sintetizo um mundo mágico.
Estou chegando…
(Manifesto de fundação do Grêmio Recreativo Arte Negra Escola de Samba Quilombo)

Isnard Araújo

Se o acaso ajuda a definir tantos momentos da vida, no samba ele é determinante para parcerias e casamentos históricos. Nos anos 1970, o professor de Educação Física Isnard Araújo tinha como objetivo a criação de um museu sobre a Portela, agremiação em que ocupava cargo na diretoria do departamento cultural. Além disso, inquieto com os rumos das escolas de samba e seu distanciamento das tradições — da valorização da cultura e do povo — tentava sistematizar seus conhecimentos em livro. Propôs a ideia à Paulinho da Viola que, muito ocupado, o levou a Candeia. Deu certo e, em 1978, ano da morte do poeta, foi publicado Escola de Samba: Árvore Que Esqueceu a Raiz. "A verdade é que o livro nunca vendeu muito. Fizemos alguns lançamentos, mas a maioria demos para nossos amigos. Houve resistência ao que denunciávamos", conta Isnard.

Hoje, com 76 anos e avesso à participações em comemorações ou eventos de samba, ele afirma estar longe de pandeiros, compositores e tamborins desde a morte do amigo. "Perdi meu líder. Ia fazer o que numa quadra de escola de samba?". A todo tempo, se refere a Candeia como uma liderança histórica entre os sambistas e fala, com saudades, das reuniões regadas a cachaça, farofa de ovo e mocotó na casa do portelense.

"Nós saímos de casa sem rumo. Íamos no Império Serrano, gravávamos as conversas e depois refletíamos. Cartola deu uns quatro depoimentos para a composição do livro", rememora Isnard, que doou todo o vasto acervo de gravações e, hoje, sequer guardou uma cópia do livro histórico - seu filho, Anderson, ficou com a última da família. "O Candeia se revoltava muito com o afastamento da escola da sua raiz, com a perda do respeito pelo sambista, com o poder do dinheiro. Tudo virou comprável já naquela época. O Quilombo e o livro, neste sentido, são resistências a essas coisas tristes que aconteceram ao samba", afirma.

Na Rua Ouseley, em Acari, Isnard participou de reuniões e debates sobre a Quilombo, a escola de samba que Candeia fundou com Martinho da Vila, Clara Nunes, João Nogueira e outros bambas. Ele lembra, por exemplo, que Paulinho da Viola precisou intervir quando membros da nova escola tiveram atitude preconceituosa com ele por conta de seu tom claro de pele.

"Ao povo em forma de arte", como cantaram Wilson Moreira e Nei Lopes no primeiro samba enredo da Quilombo, Isnard acredita que Candeia fundou a agremiação para mostrar "o valor da cultura sem envolver questões financeiras". "O dinheiro acabou com as escolas de samba. As pessoas vão envelhecendo, vão morrendo...e aquela previsão que eu fiz com Candeia se confirmou, a árvore esqueceu a raiz mesmo", lamenta.

Aldecy Reis

"Guarda esse sorriso tão antigo
Tenho outro mais amigo
Que me fez lhe esquecer...
Já nem me lembro, da sua voz
Eu já nem sei, o que se passou entre nós"
(Sorriso Antigo - Candeia e Aldecy Reis)

Aldecy Reis

Não fosse um namoro de juventude, as vidas de Aldecy Reis e Candeia jamais teriam se cruzado. Manacéa, um dos fundadores e maiores nomes da história da Portela, era tio de uma moça por quem Aldecy se apaixonou. O menino, que “escrevia algumas coisas, mas não divulgava”, foi sendo instigado pelo velho bamba. Chegou um sábado em que não houve mais como adiar, e veterano e jovem compositor foram para uma reunião da ala dos compositores da Portela.

Aos poucos, Aldecy, de andar elegante e voz afinada aos 80 anos, foi conquistando espaço ao cantar seus sambas de quadra. “Nessa época o Candeia já não frequentava mais a escola, mas fiquei sabendo que ele tomou conhecimento de quem eu era e ficou com vontade de me conhecer. Felinto, da ala dos compositores, começou a tramar alguma coisa nesse sentido”, relembra.

No dia do encontro de ambos, em Jacarepaguá, desenhou-se um mesmo esquema feito em tantas tardes e madrugadas: comida, bebida, batidas, sambas e versos de improviso. “Lá pelas tantas, jogaram no ar: 'por que você não faz um samba-enredo com o Aldecy, Candeia?' Eu tremi na base e ele topou”. Candeia, bem ao seu estilo, fez uma primeira parte e entregou ao novo parceiro para que ele terminasse. “Acho que isso foi em 1976”, relembra Aldecy. “Quando terminei de fazer, cantei pro Candeia, ele ficou olhando pro teto e perguntou se eu tinha viajado muito para escrever. Senti que ele gostou”.

A alegria pela parceria logo virou frustração, pois o samba foi derrotado e sua única gravação, garante Aldecy, é a que aparece no vídeo a seguir. Na defesa, realizada no Clube Imperial, o resultado da derrota chegou antes da madrugada. “O Candeia chorou quando contei. Disse que não aconteceria se ele estivesse lá”. Passada a frustração do Carnaval, Aldecy voltou à casa de Candeia numa segunda-feira. O sambista estava com de péssimo humor. “Olha só, se veio cantar nem adianta porque tô desde quinta-feira cantando samba, já não tô nem aí para nada”, disse Candeia para tristeza de Aldecy.

Sorte deles que Brêtas, um dos amigos mais próximos de Candeia, estava lá e falou para Aldecy cantar o que tinha ido mostrar. “Guarda esse sorriso tão antigo/Tenho outro mais amigo/Que me fez lhe esquecer”, cantou o compositor. “Peraí”, interveio Candeia. “Eu não quero ouvir porcaria. Pega lá meu violão, Brêtas!” E assim, naquela noite, nasceu Sorriso Antigo. “Já sofri demais/Agora eu tenho amor e paz.”

Teresa Cristina

"Negro não se humilhe nem humilhe a ninguém
Todas as raças já foram escravas também
E deixa de ser rei só na folia e faça da sua Maria uma rainha todos os dias
E cante o samba na universidade
E verás que seu filho será príncipe de verdade
Aí então jamais tu voltarás ao barracão"
(Dia de Graça - Candeia)

Teresa Cristina

Quando tinha sete, oito anos, a pequena Teresa Cristina estava sentada em frente ao pai, ajudando a arrumar limões para serem vendidos na feira, quando ouviu Candeia ecoar pela primeira vez em uma vitrola. Em sua meninice, não entendeu como aquele cara sentado em uma cadeira de rodas com a camisa do Flamengo poderia usar a voz para falar do orgulho de ser negro, de boêmia, amor e desilusões.

“Sinceramente, eu pensava que ele era maluco”, relembra a cantora que, à época, tinha que lidar com insultos racistas no colégio onde estudava. “Eu não acreditava naquele discurso. Todo dia eu ia dormir perguntando porque existe gente branca e gente negra no mundo, por que me lembram que sou negra o tempo inteiro?”.

A menina com vergonha da pele preta deu lugar, anos depois, a mulher, casada, estudante da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e vistoriadora do Detran. Teresa saiu da Vila da Penha para morar no Leblon, até que um amigo lhe levou um CD, comprado num sebo na Rua São José. “Vamos brindar o cansaço/meus amigos, vamos brindar o cansaço/esse é o prêmio para vitória do boêmio.” Os versos de Brinde ao Cansaço levaram Teresa de volta à meninice: emocionada, lembrou do disco que o pai ouvia, e viu Candeia reaparecer para mudar sua vida.

FOTO: Teresa Cristina

A passagem da incompreensão do significado da obra à certeza de que havia beleza e orgulho na negritude faz Teresa dividir sua vida em “antes e depois de Candeia”. Ela prova que a tal luz da inspiração deixada pelo mestre, mesmo 36 anos após sua morte, continua brilhando. “Pensei que se a música dele chegou de novo até mim, era porque eu precisava ouvi-la”, diz, com a voz embargada.

Após a reaproximação, a cantora partiu em peregrinação atrás de discos, livros, qualquer coisa que remetesse à Candeia. “Entrava numa loja e pedia qualquer coisa do Candeia. O vendedor me vinha com um CD do Zeca Pagodinho, que à época estourara nas rádios com Samba pras Moças, conta, em referência à canção que diz ‘incandeia, incandeia meu candiá’, no refrão.

A procura fez Candeia se tornar uma febre. Das brigas com os atendentes nas lojas de discos, ela partiu para Uerj, onde topou com o livro do professor João Baptista M. Vargens sobre Candeia. Conversaram no Grajaú e, aí, Teresa aconteceu: conheceu Wilson Moreira, Monarco, e a Velha Guarda da Portela. Desde então, toda manhã de sua vida se tornou um dia de graça.

Em tempos de ascenso da intolerância religiosa, do racismo e do desrespeito às diferenças de cor, sexo e fé, Teresa crê que Candeia deixou, além da obra, um norte para o futuro e para a vida. “A voz do Candeia prega união, não é algo para se ouvir sozinho. A importância hoje da voz dele, do negro no samba, é olhar para o lado e ver um irmão”.